CONSEQUÊNCIAS - 22/02/2019 - 17:07

Fechamento da Fafen eleva custo de produção do milho

Fotos: Divulgação

 

Da redação, Joângelo Custódio

Faltam cerca de 30 dias para o início do plantio do milho, o grão deveras considerado por muitos entusiastas como o “ouro do campo” e que tem perenizado Sergipe como o segundo maior produtor do Nordeste nos últimos anos, perdendo apenas para a Bahia. Mas o custo da safra deste ano sofrerá um aumento severo de até 30% em virtude do processo de hibernação da Fábrica de Fertilizantes Nitrogenados (Fafen/SE). Esse contratempo tem tirado o sono dos produtores estado afora.

Isso porque sem a Fafen não há como comprar fertilizante nitrogenado, neste caso a ureia, um tipo de composto sólido muito utilizado para fazer a adubação de um grande número de plantações. O jeito é importar a ureia de outros Estados, o que encarece demasiadamente a produção, como explica Anderson Souza, produtor do município de Frei Paulo. “Ano passado, a tonelada de ureia custava R$1.200, hoje está em R$1.600. Infelizmente, este ano vou fazer menos área plantada, ou 20 mil sacas a menos”, conta ele, que planejava obter 90 mil sacas do grão em 700 hectares.

Opinião semelhante tem Luiz Melo, produtor do município de Carira. Ele conta que vai comprar ureia em Alagoas e já contabiliza os prejuízos. “Estamos perdendo lucratividade. Minha área tem 1.500 hectares e planejo nesta safra cerca de 150 sacas de milho. Felizmente, por enquanto, não vou reduzir a produção, mas não estou satisfeito com isso. Estou saindo do meu Estado para comprar adubo em Alagoas, pagar frete e tudo mais. Ano que vem eu vou repassar esse valor ao mercado”, promete.

O consultor em agronegócio, Gleiton Medeiros, confirma que a safra 2019 inicia com preocupações para o produtor. “Já começou a fazer o preparo no solo com os problemas dos fertilizantes. Com os fechamentos da Fafen e Heringer, a procura de fertilizantes no mercado local diminui e obriga o produtor a gastar dinheiro com frete lá fora. Para plantar milho, é preciso ter muito adubo nitrogenado. Este ano não será fácil”.

O processo de hibernação da Fafen-SE está na Justiça Federal. De um lado, a Petrobras sustenta a tese de que a fábrica não traz lucros, do outro o governo de Sergipe, que é contra o fechamento do polo por motivos políticos e sociais, e que, inclusive, chegou a multar a estatal em R$50 milhões.

Recorte territorial

Foto: Divulgação

Sergipe tem mais de 174 mil hectares de plantação de milho espalhados pelas regiões Agreste, Médio Sertão, Centro-Sul e Sul, além do Vale do Cotinguiba. E a safra este ano pode chegar a  13,5 milhões de sacas, mesmo com os problemas dos fertilizantes.

Segundo o consultor, a projeção da saca do milho de 60 quilos durante a colheita está avaliada de R$33 a R$35. “Ano passado chegou a R$42 em virtude da quebra de safra. O preço aqui subiu porque regiões como Luiz Eduardo Magalhães (BA), Goiás, Tocantins, Piauí e Maranhão também diminuíram a quantidade de milho por lá, balizando o preço daqui também. Mas tudo vai depender das exportações. Naturalmente todas as consultorias esperam aumento da exportação de milho e também uma possível entrada da soja em algumas áreas, além da dependência, é claro, do clima”.

Surfe do Governo

O consultor também critica o comercial que o Governo faz quando distribui sementes e depois comemora recorde de produção, “surfando no trabalho dos produtores”. Segundo ele, não é dessa forma que acontecem os fatos. “Não é como conta o Governo, que só distribui sementes aos pequenos produtores. Não é só semente, tem que ter todo um pacote tecnológico. O governo doa 10 mil sacas de sementes, mas tem o cara que planta e colhe milho verde e isso não se contabiliza, enquanto o produtor que investe e produz muito. Tem que saber também qual a qualidade da semente que o Governo está distribuindo”, questiona ele.

Contexto histórico

A produção e produtividade de milho em Sergipe começam a ganhar força a partir do início dos anos 2000, e apresentam um salto marcante a partir de 2006, superando as médias nordestinas e mantendo níveis de produtividade em torno da média nacional. Ano após ano, são anotados recordes de safra e um maior destaque no Nordeste.

“Nesse espaço, percebe-se um surgimento de ciclo econômico virtuoso com todas as etapas produtivas ligadas à cultura do milho em harmônico desenvolvimento. Uma lição a ser ensinada em economia da inovação”, argumenta Márcio Rogers Melo, economista e analista em gestão estratégica da Embrapa Tabuleiros Costeiros (Aracaju), responsável por análises de ambiente socioeconômico e adoção de tecnologias.

Analisando-se a série histórica da região agrícola do Agreste sergipano de 2003 a 2017, verifica-se um crescimento da área plantada de 42 mil para 68,6 mil hectares e um impressionante salto de 43,7 mil para 368,5 mil toneladas produzidas, com elevação da produtividade média de 1,1 mil para 5,44 mil toneladas por hectare. Isso significa dizer que a produtividade do milho na região evoluiu de menos da metade da média nacional para se igualar à mesma em menos de 15 anos.

Os números absolutos do estado como um todo, que incluem também áreas importantes de produção, principalmente nos Tabuleiros Costeiros e Médio Sertão, impressionam de igual forma. A produção subiu de 86,5 toneladas em 2003 para 843,8 em 2017 – dez vezes mais grãos produzidos – enquanto a área plantada teve aumento apenas de 131 mil para 169,5 mil hectares, o que representa um enorme ganho de produtividade, de até cinco vezes mais, ocupando o primeiro lugar isolado nesse quesito na região Nordeste.