CONSCIENTIZAÇÃO - 03/05/2018 - 10:56

PMA atua para assegurar direitos das mulheres

Foto: Danillo Franca

 

A primeira agressão ocorreu em 2008. O marido havia chamado alguns amigos para casa e, depois que foram embora, ele afirmou que ela estava dando em cima dos seus amigos. Depois do primeiro tapa, as agressões se tornaram rotina e as justificativas sem razão eram das mais diversas: um almoço que não estava pronto no horário, a falta de atenção por parte da esposa agredida, o fato de simplesmente existir.

Durante quase dez anos, Sandra Regina dos Santos Silva, hoje com 37 anos, viu a sua vida minando com constantes agressões. Em uma delas, o marido bateu a cabeça dela contra parede e usou um pedaço de madeira para bater em suas pernas. “Pensei que iria perder os movimentos das pernas de tanta dor que senti. Hoje, não vou à praia porque tenho vergonha de mostrar as minhas pernas que estão cheias de marcas. Até um dente eu já perdi”, relembrou Sandra.

Mãe de três filhos, um rapaz de 18 anos, uma adolescente de 16 e uma bebê de sete meses, Sandra denunciou o marido quando sofreu a primeira agressão, mas, pouco depois retirou a queixa. “Ele ameaçou tirar meus filhos de mim. Tive tanto receio que acabei voltando para casa. Depois disso, as agressões só pioraram. Durante esse tempo, meus filhos viram tudo o que eu sofria e, assim que o meu mais velho completou 18 anos saiu de casa porque não aguentava mais me ver sofrendo”, contou.

Sandra passou a fazer parte dos números de violência contra a mulher que, somente nos seis primeiros meses do ano passado chegaram a 1.260 registros de boletins de ocorrência (sem contar os que não são registrados) em Aracaju. No entanto, assim como as demais vítimas de agressão, Sandra não pode ficar apenas nas estatísticas e nisso o poder público tem papel fundamental ao criar mecanismos que façam valer os seus direitos, não somente com a aplicação da Lei Maria da Penha, mas com um conjunto de setores que podem auxiliar desde o cuidado psicológico com as vítimas até a garantia da sua segurança.

Na capital, a coordenadoria de Políticas para a Mulher tem desempenhado ações que têm ajudado mulheres vítimas de violência a passarem pela situação e, não somente isso, tem trabalhado efetivamente para auxiliar mulheres vítimas de violência ou não a entenderem e a dar valor ao seu papel na sociedade. Esse tem sido um dos meios que a gestão da Prefeitura de Aracaju encontrou para trabalhar como umas pontes para que mulheres de toda e qualquer classe social, cor ou religião, encontre o caminho para cobrar e atuar fazendo valer os seus direitos como cidadã.

A coordenadora de Políticas para a Mulher, Maria Teles, explicou que, apesar de se ver muita atuação por parte de órgãos e movimentos ligados à causa das mulheres, ainda há uma subnotificação muito grande, o que dificulta, em partes, a realização de trabalhos mais efetivos. “Essa subnotificação acontece quando mulheres sofrem agressão e não denunciam, mas também quando os setores responsáveis por receber as denúncias não enquadram como violência doméstica, por exemplo. Pessoas não podem ser tratadas como meros números, mas esses números são importantes para que possamos direcionar as ações”, destacou.

No âmbito das políticas para as mulheres é instantâneo falar sobre a violência contra elas e não é por acaso. Ao longo da história da humanidade, a mulher sempre foi posta em segundo plano e colocada como ser inferior ao homem, inclusive sendo rotulada como o “sexo frágil”. Essa interpretação do papel feminino na sociedade é o principal fator que motiva a violência contra a mulher, violência essa que leva à morte pelo simples fato de a mulher ser mulher.

Ações

Segundo Maria Teles, a Coordenadoria de Política para as Mulheres não é executora, ela é uma política de transversalidade. “O que a gente faz é puxar cipós, vendo onde é que está frágil e trabalhando para fortificar”, ressaltou.

Ao longo de todo o ano de 2017, a coordenadoria que integra da Diretoria de Direitos Humanos da Secretaria da Assistência Social realizou atividades alusivas ao Dia Internacional da Mulher, a 1ª Semana da Mulher Negra (com atividades de formação, de sensibilização e de diálogo com a sociedade), rodas de conversa com os servidores, além do acolhimento à vítima de violência.

“Nosso objetivo é evitar que a violação do direito aconteça. Além dos órgãos da Prefeitura voltados para essa questão, aí nós englobamos a Saúde, a Educação, a própria Assistência, logicamente, temos uma rede que transcende isso que é o Ministério Público, os órgãos de segurança do Estado que têm que ser capacitados para prestar o devido atendimento às mulheres, a Defensoria Pública, o Tribunal de Justiça e tantos outros. É necessária essa junção de forças e competências para tratar a causa e não a conseqüência, causa esta que não é a mulher. Precisamos atuar para quebrar as diversas formas de machismo que, de fato, são os agentes que motivam esse tipo de violência”, considerou Maria Teles.

Futuro

Após os sacrificantes anos de agressões sofridas, Sandra procurou a Justiça e conseguiu a medida protetiva. Ainda no ano passado, após o nascimento de sua filha mais nova, ela foi para a Casa Abrigo, onde ficou durante alguns meses com as duas filhas e recebeu acolhida e ajuda de profissionais capacitados para tratar, principalmente, os danos psicológicos e emocionais. Logo depois, ao sair, ela foi morar com o filho com quem está até hoje.

Apesar de ter recebido ajuda, Sandra sente que a Justiça e os órgãos de segurança deveriam agir de outra forma. “Ele não foi preso. Quando eu fui fazer a denúncia, antes de ir até a Delegacia da Mulher fui a outra delegacia comum e não fui bem tratada. Além disso, acho que meu ex-marido merecia ser preso. Vejo muita facilidade para os homens e as mulheres sempre sofrem mais”, revelou.

Mesmo com a árdua experiência vivida, uma das coisas que Sandra aprendeu é que mulher não tem nada de frágil e ela é uma prova disso. Morando com os três filhos e ainda carregando as marcas da violência, com a filha mais nova nos braços, o que ela deseja é que, sendo mãe de duas meninas, elas não passem pelo que ela passou e reconhece a importância de denunciar desde a primeira agressão e, mais do que isso. “Meu desejo é que as mulheres saibam se impor antes que a agressão aconteça e que os homens respeitem mais as mulheres. Sofri muito, mas, ainda assim, hoje me sinto mais tranquila porque me livrei daquela vida e só quero viver em paz sem ter que passar novamente pelo que passei. Há o medo, mas também há um alívio por não sentir mais o peso daquela agressão”, completou.

Para denúncia de violência doméstica ligue 180, sua identidade será preservada.

Fonte: AAN