PREOCUPANTE - 03/08/2018 - 15:38

Sergipe tem apenas 13% de cobertura florestal

Gráfico: Inventário Florestal Nacional de Sergipe

 

Da redação, Joângelo Custódio

Apenas 13% do estado de Sergipe é coberto por florestas, totalizando cerca de 286 mil hectares, distribuídos entre os biomas Caatinga e Mata Atlântica. É o que aponta o primeiro Inventário Florestal Nacional em Sergipe (INF-SE), o terceiro do país, apresentado nesta sexta-feira (3), numa ação coordenada pelo Serviço Florestal Brasileiro, em parceria com a Secretaria de Estado de Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (Semarh), que visa à produção de informações estratégicas sobre a quantidade e qualidade das florestas.

Para a realização do Inventário, o Serviço Florestal Brasileiro, órgão do Ministério do Meio Ambiente, firmou acordo de cooperação com a Semarh, no qual, por meio do Fundo Estadual de Recursos Hídricos (Funerh), custeou atividades no valor de R$1,6 milhão, ficando a cargo do Serviço Florestal a coordenação do trabalho de coleta de dados em campo, a complicação e análise das informações e publicação dos resultados.

Por serem provenientes de dados coletados diretamente em campo, em larga escala e de forma sistemática, as informações geradas no âmbito do IFN representam uma oportunidade de conhecimento a respeito da diversidade dos recursos florestais e de sua importância para as comunidades rurais. Orientando os governos e a sociedade no desenvolvimento e implementação de políticas de manejo e conservação das florestas.

“Inventariar é tomar conhecimento. É saber o que se tem. E conhecimento é o instrumento mais importante para soluções. O fato concreto é que nós estamos aqui conhecendo, de forma técnica e coordenada, o que ainda há de mata atlântica, de caatinga. Sabendo isso, nós temos um instrumento importante para que se viabilize políticas públicas, para que a sociedade possa compreender e possa agir, como colaboradora, junto ao poder público. A situação é preocupante e temos muito a fazer, a reflorestar, a reparar a degradação ambiental que aconteceu”, destacou o gestor da Semarh, Olivier Chagas.

Cobertura desigual

De acordo com o estudo, essa cobertura ocorre de forma desigual: 56% dos municípios apresentam entre 1% e 10% de cobertura florestal enquanto apenas 10 dos 75 municípios sergipanos abrigam metade de toda a área de floresta do estado.

O levantamento identificou também que 20% das florestas de Sergipe estão nas 23 Unidades de Conservação (UCs) existentes no estado. A área protegida total é de 119 mil hectares, o que corresponde a 5% do território do estado, mas pouco menos da metade das UCs – cerca de 57 mil hectares – contém floresta.

Para a análise, foram medidas 4.220 árvores e palmeiras, coletadas 1.465 amostras botânicas (folhas, flores e frutos), além de amostras de solo, informações sobre a saúde das árvores, entre outros dados biofísicos, em 177 pontos do estado. Também foram realizadas entrevistas com moradores das áreas vizinhas aos pontos de coleta de dados.

Novas Espécies

Apesar da baixa cobertura florestal, o IFN-SE identificou 530 espécies de árvores, palmeiras, cactos, lianas e ervas, sendo 57 delas registradas pela primeira vez no estado. Em relação à sanidade das árvores, somente 36% foram consideradas sadias.

Outro dado interessante é que apenas 10 municípios detêm metade dos 13% de cobertura vegetal, sedo que o município de Areia Branca, na região de Mata Atlântica, tem a maior cobertura vegetal do Estado, 42%; e Canindé de São Francisco a segunda maior área, 19%.

O estudo também identificou evidências de atividades humanas, o chamado antropismo, em 70% dos locais amostrados, sendo a presença de animais domésticos de grande porte o mais comum (68%), seguido de sinais de incêndios (18%). Sinais de erosão foram observados em 35% dos pontos inventariados no estado.

Áreas de mananciais e de desertificação

Durante a realização do IFN-SE, foram observadas as áreas de mananciais que servem para abastecimento humano, e também a região do Alto Sertão, com o intuito de conhecer o grau de degradação e antever ações de combate à desertificação.

Tanto as áreas de desertificação como as de mananciais também apresentaram pouca cobertura florestal (18% e 11% da área total, respectivamente), o que aponta para a necessidade de políticas de ordenamento territorial e de recuperação florestal em todo o estado.

“Nós estamos na região semiárida e a seca passou a ser um fenômeno mais recorrente, fruto das mudanças climáticas. Se a gente não tiver a cobertura vegetal, os nossos mananciais vão se transformar em canais de drenagem. É importante que haja cobertura vegetal, principalmente nas áreas de recarga e preservação permanente. O estado de Sergipe está, praticamente, ocupado por gramíneas, como pastagens, cana-de-açúcar, milho. Está havendo um processo muito avançado de degradação e existe um indicador que diz que mais da metade das nossas terras estão entrando em processo de desertificação. Os estudos do Inventário têm muita relevância para o estado, para que se tenha um diagnóstico da situação”, alertou o superintendente de Recursos Hídricos da Semarh, Aílton Rocha.

Em relação à sanidade das árvores, as áreas de mananciais e de desertificação apresentaram um resultado melhor do que o estado. Enquanto 36% das árvores foram consideradas sadias no resultado geral do estado, nas áreas de mananciais esse índice foi de 47% e no Alto Sertão, de 55%.

“O Inventário vai nos ajudar na questão de montar uma política voltada para as florestas do Estado. A população precisa desse conhecimento, do que possamos extrair, dos benefícios que a floresta traz para a população mais carente. Com o Inventário, temos a ideia da cobertura vegetal, o tipo de floresta e, partir daí, termos subsídios para estudos. Participei desde o início desse inventário e estou muito feliz em estar aqui e saber que Sergipe está entre os primeiros”, elogiou a professora e chefe do Departamento de Ciências Florestais da Universidade Federal de Sergipe, Anabel Aparecida de Melo.

 

Confira o estudo na íntegra.