- 13/11/2017 - 17:07

A Fiel Observância

O mundo hodierno, imerso nos joguetes de inumeráveis explosões de informações que lhe são lançadas, esteriliza-se à voz de Deus, à sua Palavra de Vida, por ser Palavra de Salvação. Olvida-se da Palavra em prol das ‘palavras’, do vozerio de corações outros que não o de Deus, fonte de toda a Graça e de toda bênção; do vozerio de um mundo perturbado por conta de ideias igualmente conturbadas e, pior, ateias. Diante deste complexo quadro, sabemos que se faz necessário um discernimento e perguntamo-nos: Como faremos para escutar Deus? O que ele, em seu amor, nos diz?
Deus não nos criou à toa. E, para descobrirmos o porquê de nos haver querido, não precisamos de muitas indicações, bastando-nos apenas a razão iluminada pela fé. Por elas, chegamos à certeza de que ele nos criou para a Vida Nele. Sim, ‘Vida’ e não ‘vida’, porque como dissera Santo Irineu: “A glória de Deus é o homem vivente”.
Dizemos estas coisas, porque, na Revelação, ele nos deixa entrever acerca de si: Vivente; doador da vida verdadeira. E como nos aportaremos nesta Vida? Eis o indicativo dado pelo próprio Deus: “Agora, Israel, ouvi as leis e os decretos que eu vos ensino a cumprir, para que, fazendo-o, vivais e entreis na posse da terra prometida pelo Senhor Deus de vossos pais” (Dt 4,1). Integralmente, a Palavra de Deus eleva o homem. Dizemos integralmente porque muitos têm a infeliz atitude de selecionar ao seu modo ‘retalhos’ das Divinas Palavras, pretendendo ilusoriamente moldar a vida de Deus, proveniente dele, à mercê de seus caprichos e opiniões pessoais.
Os mandamentos do Senhor concentram em si as inteiras satisfações para a vida do homem. Tal afirmação embute em si a ideia de ‘sabedoria’ e ‘inteligência’. Logo, o que é sabedoria senão deixar-se guiar pelo Espírito de Deus e, por meio dele, tornar-se próximo, íntimo das realidades transcendentais a este mundo, pois, como assevera-nos Santo Agostinho: “São néscios todos aqueles que desejam ver a Deus com os olhos exteriores, quando só pode ver-se com o coração, segundo o que está escrito no livro da Sabedoria: ‘Busca-o por meio da humildade de coração’ (Sb 1,1)” (De sermone Domini, 1, 2)? Deixar-se guiar por Deus é uma atitude típica dos humildes e, portanto, dos sábios. Já por inteligência, entendamos uma razão lúcida diante das interpelações das realidades temporais. Também esta é dom de Deus. Assim sendo, os mandamentos do Senhor auxiliam-nos em nossa vida de interioridade e em nossa ação neste mundo.
Interessante é que estas verdades acerca da importância da conservação e observância dos mandamentos do Senhor encontram-se no quarto capítulo do Deuteronômio, cujo nome, proveniente do grego, significa, ‘segundas palavras’. É aqui, neste livro, que temos o grande discurso de Moisés antes de o povo adentrar na Terra Prometida, antes da morte deste grande líder do povo hebreu, na região de Moab. No Deuteronômio, temos compendiados tudo aquilo que era vontade do Senhor para o povo que iria apossar-se de sua tão almejada terra; uma espécie de normas de conduta. Ali estava toda a vontade de Deus para o seu povo, não precisando acrescer ou adulterar nada, tal como nos indica a perícope: “Nada acrescenteis, nada tireis, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo” (Dt 4,2).
A eminente e fiel observância da Palavra do Senhor seria nota característica daquela nação, inclusive demonstrando essa intimidade com o seu Deus, encontrando aí o seu benfazejo, a sua alegria e, porque não dizer, a sua glória, tal como continua o texto evidente do Deuteronômio: “Pois, qual é a grande nação cujos deuses lhe são tão próximos como o Senhor nosso Deus, sempre que o invocamos? E que nação haverá tão grande que tenha leis e decretos tão justos, como esta lei que hoje ponho diante dos teus olhos?” (4,7-8). Corroborando esta verdade, o salmo 32 cantar: “Feliz a nação que tem o Senhor por seu Deus, e o povo que ele escolheu para sua herança” (Sl 32,12).
Ser fiel observante daquilo que é vontade do Senhor, dos seus mandamentos, é uma via ditosa que não se encerra nesta terra de exílio, mas que nos aponta a uma realidade mais profunda: o céu. Que nós, sempre inspirados pela Palavra de Deus, de onde angariamos a nossa força, a nossa sabedoria, a nossa inteligência para retribuir ao Senhor pela observância fiel dos Seus mandamentos, sintetizemos a nossa vida na santidade e na justiça; realidades que, juntas, são como um medidor eficiente de que somos ou não amantes e cumpridores dos Divinos Preceitos.