- 09/07/2018 - 16:15

A força do silêncio

 

Padre Everson Fontes Fonseca,
Administrador da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro

Num mundo de muitos sons e imagens, de muito barulho enfim, perturbamos o nosso interior facilmente e corremos o grave risco de sermos “intoxicados” pelo perigo de nos satisfazermos com o que é alheio Àquele que, salutarmente, preenche o vazio de nossa alma, de nosso coração. Numa cultura de tantas e rápidas informações, existe o iminente risco de fugirmos de Deus e de nós mesmos, ludibriando a nossa carência da Verdade, que é o próprio Deus.

Em não raros momentos, a Sagrada Escritura nos apresenta, pedagogicamente, a importância de encontrarmos Deus por um coração aberto à experiência do silêncio interior, de um silêncio que, longe de ser um absurdo de um vazio, se caracteriza por ser povoado da presença divina. Assim temos, no meu fraco entendimento, a criação do mundo feita no silêncio operante de Deus, que, de maneira pontual, diz apenas o “Faça-se”, e o que existe se fez. E por que penso assim? Por saber que a determinação é mais forte quando a concentração é aliada de um silêncio produtivo. Muito embora Deus seja Onisciente, Ele não dispensa o silêncio para criar, tendo em vista que a Sua constante ação é discreta.

Ainda temos a belíssima passagem do encontro do Profeta Elias com Deus na caverna do Horeb (cf. 1Rs 19,9-13). Ainda que Deus estivesse por trás dos fenômenos que se apresentavam a Elias, somente a suavidade da brisa mansa faz com que o Profeta sinta a Sua presença, que lhe afaga o coração perturbado pelas perseguições da vida, figuradas pela ânsia de sua destruição por parte da rainha Jezabel. E essa capacidade de Elias em reconhecer fortemente a presença de Deus no silêncio da brisa é imagem do coração humano que realmente encontra paz numa relação silenciosa, e por isso profunda. Engana-se a alma que acha que encontrará Deus na algazarra e no estardalhaço de uma oração. No máximo que pode ocorrer quando assim rezamos é o aumento da nossa angústia, do nosso vazio interior. Prova-nos ainda as recorrentes vezes que o próprio Jesus, Deus, saía para os lugares desertos para encontrar-Se com Seu Pai, na comunhão do Espírito Santo; ou mesmo o que nos ensinou, com uma linguagem parabólica, no Sermão das Bem-Aventuranças: “Quando orares, entra no teu quarto, e, fechada a porta, ora a teu Pai em segredo; e o teu Pai, que vê o que se passa em segredo, te dará a recompensa” (Mt 6,6). Esse quarto não é um cômodo, mas o nosso coração recolhido para o encontro com Deus.

O Cardeal guineense Robert Sarah, numa espécie de catequese sobre a importância da oração silenciosa e, por isso, frutuosa, dirá: “É preciso demorar no silêncio, no abandono e na confiança. Orar é saber se calar durante longo tempo. […] Quanto mais perseverarmos no silêncio, mais teremos a oportunidade de ouvir o murmúrio de Deus. […] A oração é um longo tempo de deserto e de aridez, quando desejamos alcançar alegrias fáceis do mundo em vez de esperar Deus. […] Creio que a oração pede de algum modo a ausência de palavras, porque a única linguagem que Deus ouve verdadeiramente é o silêncio do amor. […] Não há fecundidade espiritual senão em um silêncio virginal, que não esteja misturado com muitas palavras e ruídos interiores”. E, à luz destas palavras, penso, inclusive, nos alvoroços que querem entrar em nossas liturgias pelas palmas, acenos e uma exaltação descabida de uma subjetividade que quer eclipsar a grandeza do Divino (em especial pelas canções que realçam o ‘eu’ e as carências da natureza humana). Assim, não devo ir à Missa para, primeiramente, me sentir bem, mas para encontrar-me com Deus; somente a partir do encontro com Ele, é que terei uma satisfação interior, tendo elementos para abandonar-me n’Ele, numa atitude de fé, típica de um silêncio prenhe de Deus e iluminador da minha existência, significada e constantemente resignificada em Deus, tal como a Virgem Maria nos exemplifica (cf. Lc 2,19.51).

Se orarmos no silêncio e o vivermos, estaremos numa relação de amor chamada contemplação, onde palavras não são necessárias na intimidade com Àquele que se ama. Transformemos oração em vida e vida em oração, de maneira que no exercício de um estejamos no outro aspecto, sempre povoando o nosso coração do silêncio divino, fora de quem só há desespero e ilusão ensurdecedores.