- 29/08/2017 - 16:11

A Importância do ‘Amém’

Ao concluir a reflexão – ainda que sorrateira – sobre o Credo, caminhando, de artigo em artigo, naquilo que a Santa Mãe e Mestra Igreja nos expõe como Profissão de Fé, entendo que seja razoável falarmos acerca daquele termo que se tornou coroamento das nossas orações (quiçá, até jargão para alguns), o ‘amém’.

Do hebraico ‘amen’, esta palavra embute, em si, um valor imensurável, transmutável diria, graças à força de sua expressão. Desta maneira, não deve ser definível simplesmente como um termo, mas como uma atitude. Principalmente no Novo Testamento, o ‘amém’ assume a postura de juramento. Nos Evangelhos (especialmente no de São João), tal atitude de ajuramento encontrará a sua vivacidade na boca mesma de Jesus. Daí, não poucas vezes, em grandes definições, a Escritura trazer o que nas nossas versões se traduz por “Em verdade, em verdade vos digo…”, um ‘amém’ duplicado. É interessante notar ainda que é justamente com o ‘amém’ que se encerram as Escrituras, no Apocalipse do mesmo São João: “Aquele que atesta estas coisas diz: Sim! Eu venho depressa! Amém. Vem, Senhor Jesus!” (Ap 22,20), transitando entre um juramento da parte Daquele que vem [a saber: o Esposo da Igreja, Jesus Cristo] e uma atitude de assentimento de quem O escuta e clama a Sua vinda, ou seja, a Igreja, imbuída do Espírito (cf. Gl 4,6).

Entretanto, esta promessa que ganha realce nos lábios de Jesus é propositura à nós. E, no caso da Igreja Católica, ‘Novo Povo de Deus’, esta proposição é-nos dirigida em assembleia, como uma resposta pessoal, subjetiva, numa qualificação teologicamente maior e mais profunda. Quando dizemos “amém”, de maneira mais pontual ao término do Credo, equivale dizer mais uma vez o “eu creio”, no mesmo sentido de Povo da Nova e Eterna Aliança. O “eu creio” passa de emanado de lábios subjetivos à totalidade do Corpo Místico de Cristo, a Igreja, que se utiliza de nós naquela confiança absoluta do que prometeu seu Deus, Senhor e Esposo. Assim, o “eu creio” pronunciado pessoalmente o é, antes, de toda a Igreja. Esta atitude que, aparentemente, parece-nos corriqueira e desapercebida tem a sua prefiguração na ‘Assembleia do Sinai’, quando Moisés, explanando ao Povo do antigo Israel os mandamentos de Deus, congrega-o no deserto, e, como que por uma só boca, recebe como resposta o “amém” (cf. Dt 27,15-26). Ainda que vacilemos na fidelidade, tal como o Povo da Primitiva Aliança, deveremos desejar corresponder-lhe, mesmo que se trate apenas de um anseio (cf. Gn 15,7-21). E Ele, que sabe de como a nossa adesão, por vezes, é frágil, nos abençoará em nossos propósitos, em nosso “amém” (cf. Is 65,16).

Neste mesmo sentido, concorre-nos o Catecismo da Igreja Católica: “O ‘amém’ final do Credo retoma e confirma, portanto, suas duas primeiras palavras: ‘eu creio’. Crer é dizer ‘amém’ às palavras, às promessas, aos mandamentos de Deus, é confiar totalmente naquele que é o ‘Amém’ de infinito amor e de fidelidade perfeita. A vida cristã de cada dia será, então, o ‘amém’ ao ‘eu creio’ da profissão de fé de nosso Batismo” (n. 1064). E o Catecismo encerra este esclarecimento com o belo conselho de Santo Agostinho: “O teu Símbolo [a Profissão de Fé] seja para ti como um espelho. Olha-te nele para veres se crês tudo o que declaras crer e alegra-te cada dia por tua fé”. Assim, o ‘amém’ do Credo só será uma constatação se antes for uma instante avaliação, uma verificação do que cremos.

Ainda tratamos o ‘amém’ como uma realidade muito mais profunda, rumando do seu radical ao seu sentido último: antes de seu um termo, antes de ser um juramento, de ser uma adesão, é uma Pessoa. Jesus Cristo é “o Amém” (Ap 3,14), porque n’Ele se concentra toda a realização da promessa de Deus para a humanidade, para o mundo (cf. Jo 1,2-4). É por este motivo que as palavras de Jesus são marcadas pelo tom de uma autoridade peculiarmente divina: é o mistério de Deus que veio realizar o prometido pelo próprio Deus. Daí termos ainda no Catecismo da Igreja Católica: “O próprio Jesus Cristo é ‘o Amém’. Ele é o ‘Amém’ definitivo do amor do Pai por nós; assume e consuma nosso ‘Amém’ ao Pai: ‘todas as promessas de Deus, com efeito, têm nele (Cristo) seu sim; por isso, é por Ele que dizemos ‘amém’ a Deus para a glória de Deus’ (2Cor 1,20)” (n. 1065).

Que o nosso frágil ‘amém’ seja fortalecido, corroborado pela força inextinguível do Único e Verdadeiro “Amém”, porque aquele Deste participa. E que a nossa fé seja, crescentemente, uma adesão às verdades eternas que à nós são oferecidas por Cristo e Sua Igreja.

“Amém!”