- 10/10/2018 - 16:46

A Mãe da Divina Eucaristia (Parte II)

 

 

Padre Everson Fontes Fonseca,

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro

No nosso último encontro, refletíamos sobre a relação existente entre a Encarnação do Verbo, Jesus Cristo, no ventre puríssimo da Virgem Santíssima, e a condição de “primeiro Sacrário” que recai sobre a mesma Virgem. Hoje, quero ponderar com o meu caro leitor a ligação igualmente íntima entre o sacrifício de Cristo na Cruz e, neste, o papel de Nossa Senhora como Mãe da Eucaristia.

Em cada Santa Missa, dizemos, após o convite do sacerdote à oração: “Receba o Senhor por tuas mãos este Sacrifício, para a glória do Seu nome, para o nosso bem e de toda a Santa Igreja”. A Missa, antes de ser vista como Ceia do Senhor, é, sobretudo, sacrifício onde Cristo oferente se dá ao Pai, e, n’Ele, nos damos também; de certa forma, sacrificamo-nos no Cordeiro Imolado, que transformou o que, anteriormente, era “fruto da terra, da videira e do trabalho humano [fruto do nosso suor, portanto]”. Assim, vivemos o lado sacrifical da Eucaristia.

A Virgem Maria também o viveu, não somente pela participação mística no sacrifício de Cristo pela Santa Missa, como, radicalmente, participou deste mesmo sacrifício na ‘Hora da Cruz’, onde se realizou o que lhe dissera o velho Simeão na Apresentação do Menino Jesus ao Templo: aquela criança recém-nascida, que Maria portava em seus braços, seria “sinal de contradição”; e mais: uma “espada de dor” atravessaria o seu peito virginal. Neste sentido, São João Paulo II, na Encíclica ‘Ecclesia de Eucharistia’, dirá: “Preparando-se dia a dia para o Calvário, Maria vive uma espécie de ‘Eucaristia antecipada’, dir-se-ia uma ‘comunhão espiritual’ de desejo e oferta, que terá o seu cumprimento na união com o Filho durante a Paixão, e manifestar-se-á depois, no período pós-pascal, na sua participação na celebração eucarística, presidida pelos Apóstolos, como ‘memorial’ da Paixão” (n. 56).

Imaginemos a emoção do espírito de Maria ao participar de cada Missa… A cada renovação do Sacrifício incruento de Seu Jesus – tal como se constitui o mistério eucarístico –, renovava-se o sentimento de maternidade da Senhora da Esperança. “[…] ao ouvir dos lábios de Pedro, João, Tiago e restantes apóstolos as palavras da Última Ceia: ‘Isto é o meu corpo que vai ser entregue por vós’ (Lc 22, 19). Aquele corpo, entregue em sacrifício e presente agora nas espécies sacramentais, era o mesmo corpo concebido no seu ventre! Receber a Eucaristia devia significar para Maria quase acolher de novo no seu ventre aquele coração que batera em uníssono com o d’Ela e reviver o que tinha pessoalmente experimentado junto da Cruz” (Ecclesia de Eucharistia, 57).

Este sentimento de maternidade, que palpita no coração e na lembrança de Maria, não era algo alheio a nós, pois foi na ‘Hora da Cruz’, que Jesus Cristo, nosso Senhor, nos tutela à Sua Mãe como nossa também. Porque “não pode faltar o que Cristo fez para com sua Mãe em nosso favor. De fato, entrega-lhe o discípulo predileto e, nele, entrega cada um de nós: ‘Eis aí o teu filho’. E de igual modo diz a cada um de nós também: ‘Eis aí a tua mãe’ (cf. Jo 19,26-27). Viver o memorial da morte de Cristo na Eucaristia implica também receber continuamente este dom. Significa levar conosco – a exemplo de João – aquela que sempre de novo nos é dada como Mãe. Significa ao mesmo tempo assumir o compromisso de nos conformarmos com Cristo, entrando na escola da Mãe e aceitando a sua companhia” (Ibidem).

Não é por acaso que, nas suas grandes celebrações – como as dominicais, por exemplo –, a Igreja-Mestra professa a sua Fé. E, em um dos artigos do seu Credo, diga: “Creio na comunhão dos santos”. Principalmente pela Oração Eucarística, a Igreja que está no Céu se une eminentemente à sua dimensão militante, terrestre, e, nesta realidade de comunhão, haja a comum participação de todos os membros da Igreja que estão, pela graça, unidos a Cristo Morto e Ressuscitado. Esta verdade de fé também diz respeito a presença espiritual da Virgem em todas as santas missas, não se tratando, apenas, de uma recordação distante do seu nome; mas, como Mãe da Igreja, que ora conosco. Daí, dizermos na Oração Eucarística I (também chamado Cânon Romano): “Em comunhão com toda a Igreja, veneramos a sempre Virgem Maria, Mãe de nosso Deus e Senhor Jesus Cristo”.

Como filhos de Maria, bebamos de sua espiritualidade eucarística, porque estamos na sua ‘escola’. Aprendamos com a Virgem oferente, orante e adoradora, que nos ensine a cultivar em nossa fé uma verdadeira piedade sacramental, tal como nos inspira a Mãe do Cordeiro com a sua vida, o seu testemunho, a sua inspiração e oração.