- 04/09/2017 - 17:56

Aracaju, em agosto

Acabou o mês que uma crença popular associa a “desgosto”. Ainda que não se saiba explicar a razão dessa crença, a história de Aracaju está bem marcada pelo “desgosto de agosto”. Assim foi com a tragédia de Fausto Cardoso, o torpedeamento dos navios brasileiros e o suicídio do Presidente Getúlio Vargas, fatos que trouxeram dor para os aracajuanos em diferentes agostos.

No primeiro dia de agosto de 1906, Aracaju engalanada acolhia a visita do deputado federal Fausto Cardoso, filho ilustre da terra, que brilhara no Parlamento brasileiro, denunciando a política econômica do Ministro Joaquim Murtinho. Iniciando novo mandato, ele enchia de esperança os conterrâneos, que aspiravam dias melhores para Sergipe, confiando no seu prestígio político e na sua coragem. Advogado, professor, jornalista, poeta, orador, o deputado carismático tinha um discurso de fé na liberdade e no progresso. A partir do dia 10, ele liderou um movimento político que resultou na queda do governador Guilherme Campos e apontou para o fim da oligarquia Olímpio Campos. Aracaju viveu belos dias. Mas a intervenção federal, com o envio de dois batalhões do Exército para Sergipe, viria garantir a reposição do grupo olimpista e encher de sangue e de consternação a jovem capital.

Fausto Cardoso foi morto com um tiro no baixo ventre, na porta do Palácio do Governo. Desarmado e sozinho, ele enfrentou de peito aberto os soldados que lhe tiraram a vida, numa cena pungente e apoteótica. Tentou defender o “palácio dos sergipanos”, mas viu um amigo ser ferido e outro morto. No desespero, ofereceu sua vida “à honra de Sergipe”. Era 28 de agosto de 1906. Por alguns anos, não só o mês de agosto, mas o dia 28 de cada mês, serviu às explosões de dor pela lembrança da tragédia.

Entre 15 e 16 de agosto de 1942, Aracaju seria novamente abalada. Os navios brasileiros Aníbal Benévolo, Araraquara e Baependy, torpedeados por submarinos alemães na costa de Sergipe, atingiram diretamente a capital, que passou a conviver com o horror de corpos desfigurados chegando à praia, com as histórias dos sobreviventes que faziam chorar, com os destroços dos navios afundados, com a realidade da guerra. O historiador Luiz Antônio Pinto Cruz mostra que o medo, a vigilância, a desconfiança, a escuridão noturna imposta para cumprimento do Black out, tudo configurava a pavorosa realidade, que tinha chegado, de chofre, para incorporar-se ao dia a dia dos aracajuanos.

Numa cidade pouco populosa, muitos se tornaram suspeitos. Acreditava-se haver um inimigo interno, que era preciso combater: os integralistas, os comunistas, os simpatizantes da causa alemã, tidos como “quinta-coluna”, acusados de estarem colaborando com interesses considerados antipatrióticos. Brasileiros e estrangeiros foram alvos da fúria e do ardor de estudantes que depredavam residências, invadiam estabelecimentos comerciais, acusavam suspeitos de espionagem e pichavam com um “V” a frente das suas residências, numa alusão aos “homens V”, voluntários a serviço do nazismo. Nessa situação os jovens mobilizavam a população pela entrada do Brasil na Guerra contra os países do Eixo. Sua vontade de servir à Pátria inquietava os familiares, fazia crescer a angústia entre as mães e tornava inesquecível aquele mês de agosto, marco de tantos desdobramentos.

Em 24 de agosto de 1954 suicidou-se Getúlio Vargas. A notícia chegou aos aracajuanos pelo rádio. A Carta Testamento foi lida na Rádio Difusora e os comentários cheios de emoção provocaram choro e desespero em muitos ouvintes. Governava o Estado o Partido Social Democrata, o PSD de Arnaldo Garcez. A União Democrática Nacional, UDN, que em Sergipe era liderada por Leandro Maciel, era tida, nacionalmente, como culpada pelo gesto do Presidente da República.

Ibarê Dantas mostra que a dor da tragédia pessoal de Vargas, explorada com sensacionalismo, levou pessoas às ruas, em Aracaju, clamando contra o partido da oposição. Na Praça Fausto Cardoso, as manifestações terminaram com o assassinato de um homem, enquanto em toda a cidade, casas de udenistas foram depredadas e houve tentativas de invadir o sítio pertencente a Leandro Maciel, no Bairro Cirurgia. Veículos de comunicação também foram atacados. Tentou-se invadir a Rádio Liberdade e a sede do Correio de Aracaju foi depredada; o jornal parou de circular por um tempo.

Que coincidência! Aracaju colecionou agostos trágicos…