- 08/01/2019 - 19:18

As ações de Cristo e da Sua Igreja

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro.

 

Quando lemos as páginas do Evangelho segundo São Marcos (cf. Mc 6,7-13), vemos o Senhor que, ao sair de Nazaré, Sua cidade, inicia a atividade apostólica dos discípulos. Com este olhar, vale, então, ressaltarmos alguns pontos do que encontramos.

O primeiro deles, o Senhor envia os discípulos “dando-lhes poder sobre os espíritos impuros” (Mc 6,7). Percebamos: aos discípulos não é dado um poder alheio ao do Cristo. Neste sentido, temos o comentário de São Beda: “Benigno e clemente, nosso Senhor e Mestre não dá com escassez do seu poder a seus servos e discípulos, posto que assim como Ele curava todo desfalecimento e toda enfermidade, deu também a seus apóstolos poder para curá-los. […] Entretanto, existe uma grande distância entre dar e receber. O Senhor opera com seu próprio poder em tudo o que faz, ao que os seus discípulos, se fazem algo, é confessando a sua debilidade e o poder do Senhor” (In Marcum, 2,24).

Percebamos ainda como é concluída a passagem do trecho do Evangelho: “Então os doze partiram e pregaram que todos se convertessem. Expulsavam muitos demônios e curavam numerosos doentes, ungindo-os com óleo” (Mc 6,12-13). Os Doze, enviados, eram ‘vigários’ do Cristo, faziam-Lhe as vezes, continuavam a Sua missão divina. E, quando tratamos do Colégio dos Doze [Apóstolos], estamos tratando da própria Igreja Católica, que, no desenrolar da história humana, somente ela, age no nome e no poder de Cristo, fazendo-Lhe as vezes, continuando a Sua missão redentora. Daí, o Concílio Vaticano II, no Decreto Ad Gentes, afirmar: “A missão da Igreja realiza-se pois, mediante a atividade pela qual, obedecendo ao mandamento de Cristo e movida pela graça e pela caridade do Espírito Santo, ela se torna atual e plenamente presente a todos os homens ou povos para os conduzir à fé, liberdade e paz de Cristo, não só pelo exemplo de vida e pela pregação mas também pelos sacramentos e pelos restantes meios da graça, de tal forma que lhes fique bem aberto caminho livre e seguro para participarem plenamente no mistério de Cristo” (n. 5).

Outro dado que nos salta aos olhos está na forma a qual o Senhor envia os Apóstolos. Envia-os em dupla. Aqui, São Gregório Magno dirá: “Manda de dois em dois a seus discípulos à pregação, porque são dois os preceitos da caridade, o amor de Deus e do próximo. […] Deste modo, nos insinua que o que não tem caridade para com os demais, não deve de nenhum modo tomar para si o oficio da pregação” (Homilia in Evangelia, 17). O Senhor ordena que os Seus levem apenas o necessário, um cajado, uma veste e um par de sandálias; nada mais que isso. Mas, também esses apetrechos têm um significado. O cajado ou báculo, além do simbolismo do pastoreio, possui como figura o poder do Senhor, sobre o qual os discípulos operariam e se sustentariam. O poder do Senhor, além da força de operação para a vida pessoal do discípulo diante de seus cansaços e quedas, também é arma que afugenta quando dos assaltos e perigos dos inimigos, além de ser meio de resgate das ovelhas em situações de risco. Já em relação às sandálias, Santo Agostinho afirmará: “Tendo em conta que, não deixando cobertos os pés por cima nem desprovidos por baixo [diferente de sapatos que cobrem todo o pé] dá a entender que não devem ocultar o Evangelho [simbolizado pelos pés (cf. Is 52,7)] e nem se apoiar nas comodidades terrenas” (De consensu evangelistarum, 2, 30). Mas, e a túnica? É símbolo da graça de Deus, que não tem dupla nascente senão o coração do próprio Senhor, que os envia e lhes fortifica; que os reveste.

Somos os discípulos-missionários da hora atual. E tudo o que Jesus ordena aos seus servirá também para nós. Assim, como os Apóstolos não tinham em si mesmos os meios necessários para o anúncio, para a missão e para o testemunho do Evangelho, nós também não os temos. Tudo é obra gratuita de Deus, que capacita os que Ele, no Seu desígnio misterioso de amor, chama e envia. Diante dos nossos medos e apreensões: tudo é obra de Deus. E, postos no mundo para um apostolado no que, cotidianamente, fazemos, deveremos nos deixar conduzir, porque confiamos na nossa vocação e envio, pela graça do Senhor, que quer precisar de nossa ação no mundo, da ação de Sua Igreja, a quem pertencemos, e cujas ações são nossas, e as nossas também dela.