- 18/09/2017 - 17:30

A Cheia de Graça e Templo do Espírito Santo (Parte II)

Na continuidade do que já refletimos no nosso último artigo, desejamos refletir sobre a beleza de Maria, no vislumbre da sua puríssima alma, que sempre primou pela santidade; santidade esta que é dom de Deus, graças a uma intimidade com o Espírito Santo.
No seu clássico, ‘Glórias de Maria’, Santo Afonso de Ligório – valendo-se de muitos autores cristãos que, fartamente, tratam do esponsalício entre a Imaculada Virgem Maria e o Espírito Santo –, escreve: “Foi Maria a única que […] mereceu ser chamada Mãe e Esposa de Deus. Com efeito, […] o Espírito Santo veio corporalmente a Maria, enriqueceu-a de graça sobre todas as criaturas e nela repousou, fazendo-a sua Esposa, Rainha do céu e da terra. Veio corporalmente a Maria, […] quanto ao efeito; pois veio formar de seu corpo imaculado o imaculado corpo de Jesus. […] Chama-se por isso Maria templo do Senhor, sacrário do Espírito Santo, porque por virtude dele se tornou Mãe do Verbo Encarnado”. E referindo-se à beleza de Maria, continua: “Podendo criar uma Esposa toda formosa, qual lhe convinha, tê-lo-ia deixado de fazer? Não; tal como lhe convinha a fez, como atesta o próprio Senhor, celebrando os louvores de Maria: ‘És toda formosa, minha amiga, em ti não há mancha original’ (Ct 4,7)”. Maria foi preparada, desde toda eternidade, ‘sonhada’, plasmada pelo mesmo Espírito para ser-lhe um templo espiritual antes mesmo de fazer dela um templo da Graça Encarnada, pois: “Maria desde sua conceição foi cumulada com as riquezas da graça pelo Espírito […] antes que Lúcifer a possuísse”, e que não o fez.
É graças a este relacionamento, a priori espiritual e a posteriori também material, com a Graça do Espírito Santo, que Maria, a Concebida sem Pecado Original, também angaria forças para não incorrer no pecado habitual, não cedendo desta forma às tentações. Sim, porque a Maria só bastava o amor de Deus, e outros amores não lhe interessavam, muito pelo contrário, eram-lhe repelidos.
Maria, a obra prima de Deus, soube cultivar a sua santidade como resposta ao amor do Espírito, a Quem acolheu como morada. Na Virgem Santíssima, vemos cumprir, em antecipação, o que o Senhor, posteriormente, prometeu, respondendo a Judas, o Tadeu, em referência a todo aquele que o amasse: “Viremos a ele e nele faremos morada” (Jo 14,23).
E é justamente porque se encontra como morada do Espírito que a Virgem Santíssima, no momento de sua maior agonia, encontra-se içada, de pé aos pés da cruz, e não desanimando na esperança, se torna a Virgem da Piedade, inspirando também os cristãos, para, mediante uma abertura ao Espírito que lhes fecunda o coração desde o Batismo, permanecerem inabaláveis diante dos sofrimentos da vida. Se o socorro de Maria valeu-nos para tantas batalhas temporais, porque não nos valerá o seu exemplo nos embates espirituais contra o demônio, no anseio de, já neste mundo, vivermos a santidade até consumá-la no Céu? E com as suas preces e intercessão, a Κεχαριτωμένε (pronuncia-se: quecaritoméne) continua transbordando para nós o Espírito que, de tanto habitar em seu ser, a assumiu no Céu.
No dia de Pentecostes, há, sobremaneiramente, outra manifestação, onde o Espírito Divino se apropria ainda mais daquela que nunca deixou de acolhê-Lo: o Templo Maria, solenemente, em mais uma vez, é habitada por Aquele que sempre transbordou em sua ‘obra prima’, naquela cujo espírito sempre se rejubila no Espírito (cf. Lc 1,48). E novamente penetrada de modo pleno, de forma inigualável, por Aquele que sempre a penetrou, fazendo-se ‘doce hóspede’ de sua alma. Agora, na vida da Igreja e, desta, na vida da Virgem do Cenáculo, todas as promessas que Jesus tinha feito acerca do Paráclito cumprem-se inteiramente.
Nossa Senhora é a Criatura mais amada por Deus. Pois se a cada um de nós, apesar de tantas ofensas, o Senhor nos recebe com os sentimentos do pai da parábola do filho pródigo; se a nós, sendo pecadores, amando-nos com amor infinito e enchendo-nos de bens para, cada vez melhor, correspondermos às suas graças, se procede assim com quem o ofendeu, o que não fará para honrar a sua Mãe Imaculada, a Virgem Santíssima, sempre fiel? Se o amor de Deus se mostra tão grande, quando é pequena a capacidade do coração humano – que, com frequência, é traidor –, como não se manifestará no Coração de Maria, que nunca se opôs à Vontade divina?
Que a Virgem Cheia de Graça, Templo do Espírito Santo, sempre nos valha com a sua materna intercessão junto ao seu Filho e Deus.