- 02/01/2018 - 18:00

Cuidando do ‘Cão Triturador’



Um fio de lágrima descia pelos olhos da psicóloga Larissa Koeskes Pereira enquanto sua cachorra era levada para a sala de cirurgia. Dois dias antes, Mila, a yorkshire de 1 ano e 6 meses, tinha engolido um ímã amarelo de um mural de fotos. Na clínica veterinária, uma radiografia confirmava a presença do corpo estranho no estômago.
Orientada pela clínica, a psicóloga vigiou em casa o comportamento da cachorra e investigou as fezes dela por 48 horas. Sem sinal do objeto, voltou ao local para uma intervenção. Na sala de cirurgia, a espoleta yorkshire já cedia à anestesia geral. Pilotando um endoscópio, a veterinária caminhou pelo esôfago e insuflou o estômago.
Não demorou para surgir na tela um pequeno disco preto. A veterinária continuou a pesquisa. Um pouco mais para a esquerda apareceu uma capinha amarela, que também boiava no suco gástrico. Ela inseriu pelo tubo uma pinça com um cestinho de silicone, habilmente abarcou os dois objetos e os trouxe de volta goela afora. Colocou ambos num envelope plástico. Já podiam chamar a proprietária.
É o que pode acontecer se um cachorro comer osso de galinha, por exemplo. As pontas agem como travas, prendendo-se às paredes do órgão. O tecido pode necrosar e rasgar se o entrave não for tirado a tempo. Osso de galinha e de costela são um clássico no mundo dos corpos estranhos em cães. Menos comuns, mas cada vez mais frequentes são objetos que os donos deixam à mercê da curiosidade, da gula e da ansiedade dos pets.
A ingestão de corpos estranhos é fato relativamente corriqueiro nos hospitais veterinários. Filhotes são os mais arteiros. Não só pela curiosidade, mas porque querem aliviar algum incômodo com o nascimento dos dentes.
Se for um Golden Retriever (como a minha espoleta Dóra), Labrador, Bull Terrier, Boxer, Dachshund e Beagle, a atenção deve ser redobrada. São raças que ocupam o topo da lista dos que incluem objetos no cardápio. Mas pode se tratar também de uma compulsão, e aí é preciso acompanhar de perto o dia a dia do animal para tentar descobrir o que estaria estimulando o desvio de comportamento.
À parte acidentes de percurso, é consenso entre os especialistas que os animais de estimação necessitam de estímulo e condições que favoreçam seu desenvolvimento e sua saúde física e mental. É preciso passear com o animal para que gaste energia, oferecer brinquedos adequados, criar um ambiente próprio a cada raça e idade, perceber se o cão está sofrendo de ansiedade por estar sozinho.