- 20/11/2017 - 14:21

A Essencialidade da Observância

No Seu ministério, Jesus, por Sua pregação atraia inúmeras multidões, incomodando as antigas estruturas do judaísmo. Os magnatas judeus reuniam-se junto ao Cristo não para escutá-lo e encontrarem aí alento, mas para flagrá-lo em palavras e ações que, possivelmente, fossem de encontro à sua Lei e tradições. A leitura dos evangelhos explana como aqueles ‘donos da verdade’ embatiam o Senhor, iam de encontro Àquele que veio não para abolir a Lei, mas para, com a Sua vida e atitudes salvíficas, leva-la a pleno cumprimento (cf. Mt 5,17; Jo 19,30).
Flagrar Jesus: eis o intuito das autoridades judaicas. Para que isso se fizesse, os mestres da Lei e fariseus, não conseguindo achar alguma acusação em Jesus contrária a Torá, recorreram às suas tradições vazias. Assim, agarrando-se em questões acessórias e não fundamentais, questionaram Jesus irritando-o: “Por que os teus discípulos não seguem a tradição dos antigos, mas comem o pão sem lavar as mãos?” (Mc 7,5). Neste sentido, ajuda-nos na compreensão São Beda, o Venerável, ao comentar tal passagem: “Haviam recebido num sentido material as palavras espirituais dos profetas, que se referiam à correção do espírito e do corpo, dizendo: ‘Lavai-vos, purificai-vos’ (Is 1,16); e: ‘Purificai-vos, vós que levais os vasos do Senhor’ (Is 52,11), e observavam somente estes preceitos lavando-se corporalmente. Portanto, é tola a tradição de lavar-se várias vezes para comer, havendo-o feito já uma vez, e de não comer nada sem fazer antes estas purificações. No entanto, é necessário para os que desejam participar do pão que desce do céu, o purgar com frequência as suas obras com esmolas, lágrimas e os demais frutos de justiça. Necessário é igualmente purificar sob a ação incessante dos bons pensamentos e obras as manchas que possamos contrair nos cuidados temporais dos negócios. Assim, pois, inutilmente os judeus lavam as mãos e se purificam exteriormente enquanto não o fazem na fonte do Salvador. Em vão purificam seus vasos, sendo assim que descuidam do lavar das verdadeiras manchas de seus corpos, isto é, as dos seus espíritos” (In Marcum, 2, 29).
Os mestres da Lei e os fariseus ofuscavam com as suas tradições a Palavra de Deus, promotora de vida e liberdade por ser a verdade. Caiam na iniquidade prescrita pelo texto do Deuteronômio: “Nada acrescenteis, nada tireis, à palavra que vos digo, mas guardai os mandamentos do Senhor vosso Deus que vos prescrevo” (Dt 4,2), por isso, Jesus dizer: “Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim” (Mc 7,6). Muitas vezes, nosso coração se mancha no descompromisso com a Palavra de Deus. Isso nos acontece quando nos apegamos às falsas estruturas de vida e de religião, marginalizando o que é realmente vontade de Deus em favor dos nossos ‘achismos’. E pior, podemos cair até na censura de Jesus: “Atam fardos pesados e esmagadores e com eles sobrecarregam os ombros dos homens, mas não querem movê-los sequer com o dedo” (Mt 23,4). Logo, com o coração transviado, alheio à Palavra de Deus, porque chegamos a adulterá-la, caímos em rigorismos vazios e opressores.
A vivência integral da Palavra, de per si, nos purifica, pois é a carta magna do agir do cristão. Por isso, não nos cansemos de adicionar à nossa prática da Palavra a vivência do bem: “Escutai todos e compreendei: o que torna impuro o homem não é o que entra nele vindo de fora, mas o que sai do seu interior. pois é de dentro do coração humano que saem as más intenções, imoralidades, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades, fraudes, devassidão, inveja, calúnia, orgulho, falta de juízo. Todas essas coisas más saem de dentro, e são elas que tornam impuro o homem” (Mc 7,14-15.21-23). Ou, como nos fala São Paulo: “Nenhuma palavra má saia da vossa boca, mas só a que for útil para a edificação, sempre que for possível, e benfazeja aos que ouvem. Não contristeis o Espírito Santo de Deus, com o qual estais selados para o dia da Redenção. Toda amargura, ira, indignação, gritaria e calúnia sejam desterradas do meio de vós, bem como toda malícia. Antes, sede uns com os outros bondosos e compassivos. Perdoai-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou, em Cristo” (Ef 4,29-32).
Que o atento cumprimento da essencialidade dos mandamentos do Senhor inspire-nos a sempre observar que a Palavra de Deus é promotora de liberdade e de vida, porque o é da Verdade-Jesus (cf. Jo 14,6). E que, pautando a nossa existência, conscientemente, pelos mandamentos, possamos encontrar o nosso benfazejo, a nossa alegria desde este mundo para o porvir da eternidade.