- 02/10/2017 - 16:09

Falando de mulheres

Hoje mudamos o tom para falar de mulheres, lembrando que há menos de cinquenta anos, elas estão na História. O movimento feminista, a mudança no modo de conceber a ciência, a renovação trazida para os estudos históricos pela Escola francesa dos Annales, formam o conjunto de processos que tornaram as mulheres objeto de estudo dos historiadores: há uma História das Mulheres.
Desde o começo, a presença das mulheres trouxe grandes ganhos aos estudos históricos. Um novo olhar, nova visão do poder, revalorização da memória, uso de novos tipos de fontes, tudo isso ampliou o universo historiográfico e mostrou outras faces na construção do real. Pode-se dizer que as mulheres já chegaram “acontecendo”. Acontecendo no mundo do trabalho, na família, na sexualidade, no mundo da transgressão, desnudando desigualdades, sofrimento, angústia, opressão, resistência e diversas estratégias de exercício do poder. Uma história que leva ao questionamento, simplesmente ao exibir os seus dados; uma nova história, desde os anos 1970.
No Brasil, a História das Mulheres firmou-se a partir da década de 1980. A inicial curiosidade pelas mulheres no mundo colonial deu lugar ao estudo da sua integração ao mundo do trabalho, descortinando a transição do reduto doméstico ao espaço público. A expansão da educação feminina e o papel das mulheres na educação, a sua emergência no espaço da política, da vida em sociedade, sua participação na vida cultural e a sua investidura em cargos de poder vão ocupando um espaço na História, que hoje pode parecer natural, como se elas sempre tivessem estado ali.
Sim, de certo modo, elas sempre estiveram. Mas uma coisa é existir, outra é ser percebida, representada, ouvida. A História das Mulheres, por si, é uma grande denúncia. Mas, já disse a historiadora Tânia Maria Gomes da Silva, é preciso que essa História possibilite “a real transformação no estatuto da vida das mulheres”. Neste sentido, há uma longa trajetória a percorrer. Será o salto para as mulheres deixarem de ser apenas objeto de curiosidade intelectual ou motivo de denúncia, para emergir definitivamente da invisibilidade.
Vejamos nós, as sergipanas, que somos mais da metade nesta população hoje estimada em 2.288.116 pessoas. Mais de um milhão de mulheres, pouco representadas, não ouvidas, mal olhadas e sempre maltratadas. Os inúmeros papéis que as mulheres exercem na sociedade não lhes têm proporcionado estrutura e serviços que as liberem de antigas tarefas. Isso resulta numa superposição que sacrifica o seu direito ao exercício das posições por elas conquistados. As relações com os homens, também por isso, terminam marcadas por conflitos que se explicitam pelas altas estatísticas de agressões físicas ou de homicídios, sem falar na constante agressão verbal, na descriminação e nas diversas formas de violência no cotidiano.
Uma das violências mais evidentes a que as mulheres estão submetidas é o desrespeito ao seu corpo. Não apenas no uso do próprio corpo, mas no que diz respeito ao acesso às condições de saúde por ele reclamadas. E uma das situações mais claras relaciona-se à maternidade. Neste particular, as condições que as mulheres enfrentam em nosso meio são indignas. A carência absurda de unidades de Maternidades na maioria dos municípios obriga as mulheres a enfrentarem um trabalho de parto cruzando estradas, na incerteza de atendimento, nas poucas unidades existentes no Estado. A incidência de nascimentos se concentra em Aracaju, impactando, até agora, estatísticas populacionais dos municípios e levando as mulheres a enfrentarem, em ambiente estranho e incerto, a hora de dar à luz.
O mais chocante é que com toda esta afluência de mulheres do interior, a cidade de Aracaju, do alto dos seus 571.149 habitantes, para uma população feminina de 305.665 habitantes (segundo o Censo de 2010), tenha tido o número de maternidades reduzido ao longo do tempo e possua somente uma unidade da rede privada e apenas duas unidades públicas, uma das quais voltada para os partos de risco. Na prática, as parturientes podem contar com uma unidade pública disponível, para atender à capital, a Municípios do interior e a Estados vizinhos. Essa estrutura de atendimento foi criada quando a capital tinha uma população muito menor!
Não é de estranhar que convivamos, indiferentemente, com os repetidos casos de mulheres que são recusadas às portas da Maternidade, enfrentando a dor e a angústia de terem os seus filhos prejudicados pela demora no atendimento; de mulheres absolutamente desprotegidas numa hora em que têm direito ao acolhimento, à proteção, ao respeito. Esta situação, que começa no direito ao acompanhamento pré-natal, também frequentemente desrespeitado, clama à consciência da sociedade.
É imensa a tarefa que se coloca, assim, para uma História das Mulheres que dê conta dos seus desafios. Uma história que terá que se ocupar das formas como as mulheres, principalmente as mais pobres, vêm enfrentando cumulativamente, a sua inserção no mundo do trabalho, sem os direitos compatíveis à sua contribuição ao mercado e à sociedade. Somos uma maioria, tratada de forma indigna, como minoria. A situação das mulheres tem especificidades que clamam o olhar dos estudiosos, desvendando uma situação incompatível com os papéis exercidos e com a sua força no seio da população.