- 04/09/2017 - 16:41

A Fé da Mulher Pascal

Na vivência do Ano Nacional Mariano, após termos concluído o período de breve reflexão sobre os artigos da nossa Profissão de Fé, debruçar-nos-emos em contemplar alguns aspectos da vida da Beatíssima Virgem Maria. Nesta feita, observando a fé daquela que sempre soube de que nada, absolutamente, para Deus é impossível. Esta nossa ponderação terá como base a seguinte sentença do Senhor Ressuscitado: “Bem-aventurados os que creram sem ter visto!” (Jo 20,29).

A Virgem Maria é a mulher pascal. Muito embora os evangelhos não nos apresentem a manifestação de Jesus Ressuscitado à Sua Mãe, não nos é possível conceber que Maria Santíssima tenha ficado alheia à vitória de seu Filho sobre o pecado e sobre a morte. Mesmo se existisse algum trecho que narrasse este encontro de Nossa Senhora com o Ressuscitado, jamais poderia passar em nossa mente algum sinal da desesperança daquela mulher, um sinal de desânimo tal que fosse sanada com a aparição do seu Filho vitorioso.

A fé de Maria não faz a exigência de Tomé ou de Madalena ou de qualquer outro, porque nunca desconfiou da sua missão de ser Mãe de Jesus, o Deus Salvador, cuja morte não poria um fim Naquele que não tem princípio nem encerramento porque é Eterno. Percebemos que não há qualquer narração bíblica que averigue a ida de Maria até o sepulcro naquele “Primeiro dia da semana”. Isso acontece porque a fé de Maria vai mais além. Porque, como a ‘primeira dentre os crentes’, ela acreditou no Filho que diz “Eu ressuscitarei!”.

“Bem-aventurados os que creram sem ter visto!” (Jo 20,29). Percebam que o Evangelho nos mostra Jesus utilizar em sua felicitação os verbos sempre no pretérito, no passado. Esta afirmativa de bem-aventurança do Senhor não faz largas somente à intenção daqueles que creriam como nós dizemos: “Creio em Jesus Cristo [que] ressuscitou ao terceiro dia”, como professamos no quinto artigo do Credo; mas, antes de tudo faz referência aos crentes da primeira hora. E podemos nos questionar: quem são estes contemplados, felicitados pelo Senhor? Acredito que são os muitos que haviam abraçado a fé em Jesus, entretanto não foram visitados pelo Ressuscitado, e este dado não importaria à sua absoluta fé na ressurreição do Filho de Deus e de Maria. Porém, nenhum nome nos vem tão claramente como o santíssimo nome de Nossa Senhora. Ousamos dizer mais: este versículo – “Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” (Jo 20,29) – é o lado mariológico do Evangelho da Páscoa, evocando-nos a fé daquela que, por primeiro, acreditou. E, para tanto, valemo-nos do que foi lhe dito, por moção do Espírito Santo, por parte da velha Isabel, quando visitada pela Mãe do Senhor: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,45). Muito embora esta bem-aventurança que prorrompe dos lábios de Isabel seja relatada tão somente pelo Evangelho de Lucas, percebo um laço muito estreito com o aferido pelo Evangelho que nos utilizamos para esta meditação.

Logo, temos dois exemplos de fé: o remoto, como de Maria, que nunca duvidou do que dissera o seu Filho e Deus; e o tardio, como a fé de Tomé, que exigiu do Ressuscitado provas palpáveis de Sua vitória, da veracidade de Sua Páscoa. Entretanto, muito embora a fé de Maria seja sem rodeios, sem voltas, ambos chegam a uma única determinada conclusão: a aceitação pela fé. Tomé disse: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,28); e o nosso povo, com a sua sensibilidade, põe palavras na sua profissão de fé: “[…] eu creio, mas aumentai a minha fé”. Maria diz: “Eu sou a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38), num assentimento que perdurará por toda a sua existência. Entretanto, ao contrário de Maria, Tomé cresce na fé. E o nosso leitor poderá se perguntar: “E por acaso, Maria não cresce na fé?”. A resposta será: tal como é cheia de graça, transbordando-a, desta mesma maneira é a Senhora Fiel em sua fé em Deus: se é Cheia de graça igualmente o será cheia de fé, porque é repleta de Deus!

Que a experiência do Ano Nacional Mariano, onde mergulhamos com maior afinco no exemplo de fé dado pela Virgem Maria, também nos inspire na fidelidade a Deus, tal como a mesma Senhora, embutindo em nosso interior a certeza de que o Senhor permanece conosco “todos os dias até o final dos tempos” (Mt 28,19). E nós, por nossa vez, perceberemos: onde está Cristo, aí, ao Seu lado, em Sua companhia, também está a Sua Mãe, a nossa Mãe.