- 26/06/2017 - 18:53

Festa junina sem forró é apenas uma festa!

Apesar de algumas Cidades do nordeste, ter conseguido resistir ao domínio midiático dos ritmos que controlam o gosto popular, alguns “oásis” foram identificados, a exemplo de Caruaru, que tem cumprido, rigorosamente, a lei de proteção à cultura permanente e, Aracaju, através do Arraiá do Povo, que representa hoje, um dos palcos mais originais das festas juninas do Brasil.

Esta tradição do povo, que consolidou sua musicalidade através da obra Gonzaguinha, um dos artistas que contribuiu para fortalecer a identidade musical brasileira, num período em que a música americana dominava as rádios de todas as regiões do Brasil, tem sofrido a algum tempo, através da invasão de ritmos que não representam a história dos nordestinos. Sabemos que a alternância do modismo, vários ritmos viveram seus tempos de moda, no entanto, o estilo forró, está para o nordeste, como o samba para o Rio.

Quem desvirtuar esta importância e substituir por outras tendências, especificamente, no período junino, poderá agradar um segmento de público, mas estará cometendo um crime contra a cultura permanente. O forró é mais do que um estilo – é a memória mais original da história do povo nordestino, que foi cantada por seus artistas, em diversos níveis, em diferentes épocas, tratando sobre diversos assuntos de ordem política, social, familiar, ambiental e sentimental. E, neste caso, a obra Gonzaguiana retrata com fidelidade, a construção da identidade do nosso povo. No mês de junho, esta identidade é revivida, não apenas na música, como também nas danças,  culinária,  decoração, enfim, nas tradições que unem passado, presente e futuro, em um só lugar.

Ao mesmo tempo em que se cantava o humor inteligente do nosso povo, talentos originais afloravam, como foi o caso de intérpretes como Marinez e Clemilda, Anastácia e Carmélia Alves, citando estas.

A presença musical destas grandes intérpretes, influenciou de forma direta ou indireta, outras gerações que vieram após, como é o caso da cantora Elba Ramalho, que é presença marcante, até aos dias de hoje, nas principais festas juninas do nordeste.

Apesar de Estados tradicionais, como a Paraíba, terra natal de Elba Ramalho, ter se rendido aos ritmos modernos, e este fenômeno tem ocorrido em quase todos os Estados nordestinos, quando o cantor e compositor Rogério, falecido em agosto de 2014, deixou um legado afirmando que “Sergipe é o País do Forró”, ele sabia o que estava dizendo.

No canto de centenas de forrozeiros espalhados por todo o Estado, Sergipe é um daqueles  que – se amasse o que é seu, não precisaria importar artistas para fazer sua festa, se percebesse a dimensão da sua própria cultura, desconhecida pela ampla maioria dos sergipanos. No meio da crise cultural que temos vivido, Sergipe poderia ser o diferencial, mantendo sua autenticidade nas cidades tradicionais dos festejos juninos, e se diferenciar no mercado do turismo como uma região que o visitante não verá o que pode ver em qualquer lugar.

E esta visão passa pelo gestor comprometido com algo mais amplo, do que o “voto de cabresto” do eleitor que ele quer agradar temporariamente. Muitos, estão matando nossa cultura para desempenhar um papel que não compete ao poder público. O que se espera é que, após os festejos deste ano, a mídia, gestores, o povo e os artistas responsáveis, discutam conjuntamente sobre uma estratégia que possa contribuir com a verdadeira preservação das nossas tradições, que passa pela musicalidade que chamamos de forró – e, em nome do conhecimento musical, não confundam com vaneirão, lambada ou sertanejo. Um Feliz São João para quem sabe o que é São João!