- 01/06/2018 - 19:05

Filhos: dons de Deus

 

Padre Everson Fontes Fonseca,
Administrador da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, Mosqueiro.

No mundo da comodidade, onde tudo é prático, instantâneo, parece que as pessoas estão mais impacientes, desejosas de uma vida tranquila. Mas, neste mesmo mundo, onde a arte de educar exige bastante de quem o faz, principalmente pelas “ondas” desafiadoras do momento, muitos casais se fecham à geração dos filhos, à procriação, motivados pelos custos psicológicos e, quiçá, financeiros que uma numerosa prole pode trazer. Isto é lamentável!
O livro dos Salmos dirá: “Vede, os filhos são um dom de Deus: é uma recompensa o fruto das entranhas. Tais como as flechas nas mãos do guerreiro, assim são os filhos gerados na juventude. Feliz o homem que assim encheu sua aljava: não será confundido quando defender a sua causa contra seus inimigos à porta da cidade” (Sl 127,3-5). Sim, os filhos são bênçãos, inclusive aqueles que, por incrível que pareça, dão mais trabalho na criação. Ter filhos é cooperar na renovação constante que Deus faz ao mundo. Logo, os pais que têm filhos são instrumentos nas mãos do Criador, que não Se cansa de apostar na humanidade em cada criança que nasce. E as Sagradas Escrituras, em muitas de suas passagens, fazem referência a este dado, sempre tendo em vista a primeira ordem de Deus a Adão e Eva ainda no Paraíso: “Deus os abençoou: ‘Frutificai, disse ele, e multiplicai-vos, enchei a terra e submetei-a’ (Gn 1,28). E isto, sendo feito pela relação sexual, é fruto de um amor que une o esposo à esposa, de maneira tal, que geram vida pela procriação. Logo, o amor de Deus passa pelos pais que, de tanto se amarem, geram vida para si e para outros.
Não podemos nos esquecer de corações que se amam, mas possuem uma grande dor: a infertilidade. Muito embora na tradição bíblica se valorize os pais com prole numerosa, Deus não desvia o seu carinho para estes casais que sofrem tal dificuldade. Também na Bíblia, temos o caso de Ana (1Sm 1); ou mesmo de Isabel, que, em posterior, tornou-se mãe de João Batista (Lc 1,7); ou ainda o grande patriarca Abraão (Gn 15,2) e a sua esposa Raquel (Gn 30,1). Mas, alguém pode retrucar: “Estes exemplos dados, posteriormente, tiveram filhos!”. Sim, verdade. Entretanto, o tiveram por vias miraculosas.
Muito embora Deus tenha dado ao homem a inteligência necessária para o desenvolvimento das ciências, nem tudo o que é possível é lícito fazer. Isto vale para tantas técnicas de fecundação que ganham espaço no âmbito científico e na vida de determinados casais que tentam minorar a sua dor pela infertilidade. Neste ponto, fazemos questão de escutar o que nos instrui o Catecismo da Igreja Católica: “As técnicas que provocam a dissociação dos progenitores pela intervenção duma pessoa estranha ao casal (doação de esperma ou de óvulo, empréstimo de útero) são gravemente desonestas. Estas técnicas (inseminação e fecundação artificial heteróloga) lesam o direito do filho a nascer dum pai e duma mãe seus conhecidos e unidos entre si pelo casamento. Elas traem o direito exclusivo a não serem nem pai nem mãe senão um pelo outro. Praticadas no seio do casal, estas técnicas (inseminação e fecundação artificial homóloga) são talvez menos prejudiciais, mas continuam moralmente inaceitáveis. Dissociam o ato sexual do ato procriador. O ato fundante da existência do filho deixa de ser um ato pelo qual duas pessoas se dão uma à outra, e remete a vida e a identidade do embrião para o poder dos médicos e biólogos. Instaurando o domínio da técnica sobre a origem e destino da pessoa humana. Tal relação de domínio é, de si, contrária à dignidade e à igualdade que devem ser comuns aos pais e aos filhos. A procriação é moralmente privada da sua perfeição própria, quando não é querida como fruto do ato conjugal, isto é, do gesto específico da união dos esposos. […] Só o respeito pelo laço que existe entre os significados do ato conjugal e o respeito pela unidade do ser humano permite uma procriação conforme à dignidade da pessoa. (nn. 2376-2377). E pode emergir uma outra dúvida: “Qual é saída, então, para os pais inférteis que desejam ter filhos?” E a resposta: por que não a concepção pelo coração: a adoção de filhos ou a prestação de serviços relevantes em benefício do próximo?
Por outro lado, muitos casais que podem frutificar em filhos, confiando, inclusive, na Divina Providência para criá-los, se eximem de tê-los, concorrendo para meios moralmente nocivos à vida humana como preservativos, medicamentos, procedimentos cirúrgicos e todos os outros métodos artificiais de regulação da natalidade. O casal que assim o faz trai o querido pelo Criador que, fazendo-os homem e mulher, ‘no’ e ‘pelo’ amor, deveriam colaborar com Deus, aderindo integralmente à sua vocação à paternidade.
No vislumbre de cada ser humano que nasce, percebe-se a renovação do amor de Deus, que aposta na vida e na família. Que os cristãos sejam conscientes disso, de seus deveres de esposos e pais, gerando e educando os seus filhos para Deus, para o bem.