- 20/09/2017 - 15:12

Gatos se espalharam por rotas marítimas



Bastet, a deusa-gata egípcia, ficaria orgulhosa com o resultado de uma nova pesquisa genética. Gatos do Egito Antigo, e também da região conhecida como Crescente Fértil, que inclui o território que vai da Palestina ao Irã e Iraque, são basicamente os ancestrais dos felinos domésticos de hoje. Sim, aquele fofo peludo no seu colo -a Mila, a Luna, o Jim, o Caramelo ou o Laranja- descende de um bicho que vivia no Oriente Médio centenas de anos atrás.

E se ele for um gato malhado, sua estirpe surgiu na Idade Média pela beleza da pelagem que foi então desenvolvida por seres humanos. Mas seja qual for a cor do seu bichano, saiba que ele era admirado e respeitado tanto pelos antigos romanos, como pelos vikings. Isso porque eles eram úteis para caçar roedores, além de serem elegantes e charmosos.

O estudo genético foi publicado na revista científica “Nature Ecology & Evolution”. Ele foi feito analisando o DNA de mais de 200 gatos dos últimos 9 mil anos, incluindo gatos vivos ou fósseis do Egito (claro), da Bulgária, Romênia e mesmo da distante Angola.

Donos de animais domésticos se dividem em três tipos básicos: fãs de gatos, de cães, ou os mais versáteis que gostam das duas espécies (ou os que também curtem aves ou peixes ou chinchilas ou iguanas). Os gatos, como lembra a revista científica, foram domesticados relativamente tarde em comparação com os cães, “vivendo ao lado dos humanos durante milhares de anos antes do início da domesticação, provavelmente em uma relação mutuamente benéfica, atacando pragas agrícolas”.

Entra então em cena a equipe de cientistas liderada por Eva-Maria Geigl, do Instituto Jacques Monod, da Universidade de Paris Diderot, e seu colega italiano Claudio Ottoni, da Universidade de Leuven, Bélgica. E por que será que eles foram atrás de gatos vivos ou mortos nos locais mostrados na pesquisa?

“Em primeiro lugar, os restos de gatos são escassos. O gato selvagem é um animal tímido e que vive sozinho. O gato europeu vive em florestas, o gato do norte da África e do sudoeste da Ásia vive em áreas abertas, estepes e desertos. Seus ossos, mesmo que sejam preservados, raramente serão encontrados por arqueólogos”, disse Geigl.

“Os países dos quais escolhemos selecionar amostras são aqueles que desempenharam um papel no desenvolvimento das sociedades baseadas na agricultura e na criação de animais na área onde os antepassados dos gatos domésticos eram nativos. Isto foi inventado há 10.000 anos no Crescente Fértil”, diz a pesquisadora.

Faz sentido, pois os primeiros agricultores começaram a acumular grãos que atraíram roedores que atraíram gatos selvagens. Os gatos começaram a conviver com seres humanos, mas também com outros gatos. “O mar Mediterrâneo era uma área de comércio intensivo -e guerra- ao longo da história humana, pelo menos desde a Idade do Bronze. Em nosso estudo, vemos que duas linhagens mitocondriais distintas de gatos, uma originária do Oriente Próximo e uma originária do Egito, espalharam-se pelo Mediterrâneo. O padrão de dispersão segue as rotas comerciais e da guerra.”

Os pesquisadores acharam um gato indiano em um antigo porto romano no Egito, no Mar Vermelho, que se sabe ter tido comércio intenso com a Índia. E um gato com DNA egípcio apareceu em um porto viking no mar Báltico. “Assim, podemos concluir que foi o gato marinheiro que conquistou o mundo antigo”, declara a pesquisadora.