- 09/10/2017 - 18:56

Maria, Mãe de Deus e da Humanidade (Parte I)

Para nós, cristãos do Terceiro Milênio, a repetição da verdade sobre a maternidade divina de Maria Santíssima, parece ser mais que evidente: juntamos à figura de Maria, tão logo de imediato, a sua nobre missão de Mãe de Deus; e, em momento posterior, o fato de sua maternidade também para com a humanidade. Entretanto, nem sempre tal verdade ficou tão evidente no pensamento de alguns. Vejam: no pensamento de alguns, porque a Igreja, Filha, Mãe, Discípula e Mestra de Maria, nunca duvidou da identidade da Virgem Senhora de Nazaré para com Deus e consigo.
Antes mesmo de remontar-nos ao grande e frutuoso Concílio de Éfeso, no distante século V, desejo ir mais além: proponho irmos ao Gênesis, à narração da queda e do surgimento do pecado original. Após a maldição de Deus à serpente e o consequente castigo que sobreviria, a partir de Adão, para toda a humanidade, temos uma atitude misteriosa daquele que foi modelado do barro: ele nomeia a mulher ‘Eva’ (cf. Gn 3,20). É bem verdade que num dado da etimologia hebraica popular tal designação Eva (Havvah) é explicado pela raiz hayah, ‘viver’. Entretanto, o próprio nome Eva, na língua latina – tal como a conhecemos – forma o anagrama ‘Ave’. Assim, se pelo mistério da iniquidade, Eva torna-se Mãe dos viventes, que padecerão a morte como consequência do castigo dado por Deus à humanidade pecadora, Maria, pelo mistério da Redenção, torna-se Mãe dos viventes, a saber: do Cristo, o Eterno Vivente por ser Deus Eterno, Vitorioso e Imortal, tal como é chamado o Filho no Apocalipse de São João, inclusive filho daquela Mulher a quem a Tradição entrevê como sendo Maria (cf. Ap 12); e, a partir do Vivente, estamos nós, viventes no Vivente, povo da Nova Criação redimida. Daí a Igreja, em um dos prefácios do Advento, louvar a Deus no vislumbre da ‘Nova Eva’: “Do antigo adversário veio a ruína, do seio virginal da Filha de Sião germinou Aquele que nos alimenta com o pão dos anjos e brotou para todo o gênero humano a salvação e a paz. A graça que em Eva nos foi tirada, foi-nos restituída em Maria. Em Maria, Mãe de todos os viventes, a maternidade, resgatada do pecado e da morte, recebe o dom da vida nova: onde abundou a culpa, superabundou a misericórdia por Cristo, nosso Salvador” (Prefácio do Advento II/A).
Entretanto, antes mesmo desta ação de Adão em denominar Eva, no discurso da maldição à serpente, escutamos do próprio Deus: “Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua linhagem e a linhagem dela” (Gn 3,15). Quantas informações poderemos tirar desta predição de Deus! Entretanto, creio que devamos ressaltar, por ora, três delas: 1) a diferença crucial entre os filhos de Eva, que, no dizer da oração mariana ‘Salve, Rainha’ são alcunhados de “degredados”, ou seja, banidos da presença de Deus pelo pecado: os filhos da morte; e a prole de Maria, daqueles que foram redimidos pelo novo Adão, e se esforçam para corresponder à Graça, vivendo, justificados, no Cristo; 2) a partir deste dado, a renhida luta entre os filhos da luz, capitaneados pelo Novo Adão, Cristo, e os seguidores das trevas, o demônio e os seus adeptos; 3) Eva foi calcada em seu ponto fraco, e a partir dela toda a humanidade; Maria pisoteia a cabeça da serpente, vitoriosa, e a partir dela, toda a humanidade. Daí ser concluído o pensamento do versículo: “Ela te esmagará a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15), porém, percebamos que a primazia é da mulher que pisa, e não da ferida.
Do Protoevangelho, tal como é chamado o livro do Gênesis, passamos ao Evangelho cimo da Teologia, o escrito por São João. No alto de Sua Cruz, quando do momento mais sublime da história da humanidade, aquele da nossa Salvação, o próprio Senhor, ao nos presentear com os mais sublimes dons – tal como se configuram os Sacramentos –, quis outorgar-nos a Sua Mãe. E digo mais: muito mais do que nos conceder, ele nos legou Maria, e nos legou a Maria (cf. Jo 19,25-27). Desta maneira, lega-nos Maria, quando, em João representados, a acolhemos em nossa casa, em nossa morada interior: “Eis aí tua mãe”; lega-nos a Maria, quando também em João representados, aponta-nos como filhos: “Mulher, eis aí teu filho”, como se dissesse: “Minha Mãe, eu estou neles, amai-me naqueles a quem lhes dou como filhos”.
Meus caros irmãos, creio que tais textos são suficientes para provar o dado de que Maria Santíssima é nossa Mãe. Mas, antes mesmo disso, existe uma verdade de fé de onde este dado promana: Maria é Mãe de Deus; é do que trataremos no nosso próximo artigo.
Até lá!