- 05/12/2017 - 16:29

O Coração de Deus e o Nosso

Nas culturas antigas, e até mesmo na atualidade, o coração é a sede dos sentimentos. Na Escritura, sempre se atribuía à incorporeidade de Deus, algumas imagens típicas da fisiologia humana para caracterizar, ainda que de maneira ilimitada, os sentimentos do próprio Deus. Assim, o coração divino é considerado o órgão de Sua vontade (daí, aparecer 26 vezes esta associação no Antigo Testamento).
A evidência do amor e a consequente eleição que Deus nos faz é um mistério marcado pela profundidade, por isso ser inenarrável, insondável, ilimitado, enfim, dotado de tantos outros atributos que se associam à ideia de infinitude. O amor é também uma propriedade da onipotência divina: é porque pode tudo, que Deus nos ama plenamente, sente compaixão de nossas misérias.
A eleição de Deus por nós, parte desde a escolha do povo da Antiga Aliança. E mesmo tendo a misericórdia do Senhor ao seu favor, Israel sempre lhe foi ingrato: “Israel era ainda criança, e já eu o amava, e do Egito chamei meu filho. Mas, quanto mais os chamei, mais se afastaram; ofereceram sacrifícios aos Baal e queimaram ofertas aos ídolos” (Os 11, 1-2). Esta ingratidão habita principalmente na não observância dos mandamentos do Senhor. O amor de Deus é de natureza tão infinita que, mesmo prometendo que a Sua benevolência seria proporcional ao cumprimento do mandamento, Ele ama incondicionalmente, aqui se explicita a palavra misericórdia (coração que se compadece). O cumprimento dos mandamentos é o mínimo de gratidão que o povo poderia dispensar ao seu Deus.
O amor que dispensamos ao Senhor é manifestável também no próximo. Quando nossas relações com outrem se manifestam na caridade, estamos cumprindo igualmente os preceitos que o Senhor nos deu: “Amarás teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19,18; Mt 22, 39). A medida do amor que dispensamos é o comedimento da nossa intimidade com Deus: por sentirmos ser alcançados pelo Seu amor, amamos. E o maior sentimento do amor de Deus habita no Cristo, “rosto humano de Deus” no dizer de São João Paulo II). São Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios, afirma, categoricamente: “A caridade jamais acabará” (1Cor 13, 8). Não findará porque no fim dos nossos dias, quando mergulharmos inteiramente em Deus, em seu Divino Coração, nos perderemos de amor, seremos amor no Amor; por isso, Paulo exalta a caridade, mais do que a esperança e a fé.
Com maior eleição do que o povo de Israel, nós fomos escolhidos pelo próprio Deus, que nos amou desde toda a eternidade e nos predestinou a sermos o Povo da Nova e Eterna Aliança, instaurada pelo sangue de Jesus, o Sumo Amor. A nós foi revelada uma face inédita de Deus: Ele que, de tanto amar, quis fazer-se um de nós para que tivéssemos um livre acesso a Ele, ao Seu imenso Coração. Tal acesso já o temos: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração” (Mt 11, 28-29). O jugo de Jesus é suave porque é Ele mesmo; o Seu jugo é o Seu Amor. A humildade do Coração de Jesus é tão suave que nos faz repousar nele. É, pois, do seu coração aberto pela lança, que o Cristo nos atrai a si, fazendo-nos “beber, com perene alegria, na fonte salvadora” (Prefácio do Sagrado Coração de Jesus). Constantemente, atrai-nos a Si pelos sacramentos, onde, desde esta terra, como transeuntes, experimentamos o Seu amor sempiterno. A água e o sangue que brotam, torrencialmente, do Seu peito, são significativos da Graça que obtemos da Sua elevação na Cruz, maior prova de amor que Deus poderia nos dar. Na Cruz, estendido, sem vida (porque no-la deu totalmente), está a “Fornalha Ardente de Caridade” (cf. Ladainha do Sagrado Coração de Jesus). Eis o Amor que foge à lógica dos homens! Do Coração de Jesus, ferido pelos nossos opróbrios, nos vêm os mais valiosos tesouros da infinita caridade de Deus.
Pensar no Coração de Deus é manifestar a nossa confiança nos Seus mais imperscrutáveis sentimentos. Não é apenas uma recordação daquilo que recebemos Dele; mas deve-nos levar a uma transcendência de vida, pois, pelo Seu infindável amor, Deus nos eleva a Si. Que nós, com nossas escolhas cotidianas, possamos fazer sempre a vontade de Deus, expressa nos seus mandamentos. Ele que, de tanta misericórdia, abriu o seu coração, nos ofertou uma vida inimaginável para a nossa humana condição: a vida divina. Acompanhe-nos a indagação: como estamos retribuindo, dentro – é claro – das nossas imperfeições, ao gratuito amor de Deus, Ele cujo coração está ferido, machucado pelos nossos pecados, mas que, em compensação, abunda de amor por nós, que fomos resgatados pelo sangue saído de Seu interior?