- 24/07/2017 - 19:51

O nosso oito de julho

Em três anos, no feriado de oito de julho, comemoraremos o bicentenário da Emancipação Política de Sergipe. Estamos muito perto dos duzentos anos em que os sergipanos se constituíram oficialmente como identidade política e territorial, passando a compor o “corpo da pátria” que se organizou com a Independência do Brasil. Essas datas dão sentido e densidade à experiência humana que se transmite, através das gerações. Somos o resultado das conquistas, assim como das lutas, dos sofrimentos e dos fracassos dos nossos antepassados: é isto que nos faz uma comunidade na história.

O nosso oito de julho tem um significado, portanto, especial: nesta data, em 1820, Sergipe deixou de ser submisso à Bahia e passou a ter governo próprio com autonomia jurídica sobre o seu território e sobre o destino da riqueza que produzia. Na prática, foram tempos difíceis aqueles, anteriores e posteriores à nossa Emancipação. Uma conjuntura de crise, agravada pela terrível seca de 1815/1816, levou à falta de víveres; um tempo de revolução e novas ideias tornara insuportável o peso da crise e o aumento de exigências da Corte Portuguesa, instalada desde 1808 no Rio de Janeiro, a nova capital do Brasil.

Toda a região do atual Nordeste sentiu a perda da sua importância com a mudança da capital da Bahia para o Rio de Janeiro. Os impostos eram cada vez mais pesados. Em Pernambuco, levantou-se a Revolução, em 1817, à qual aderiram Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará e Alagoas. Todos queriam o fim da dominação portuguesa. O governador português do Recife foi expulso e a República foi proclamada.

A reação não tardou e objetivou isolar toda a região, por mar e por terra. O porto do Recife foi bloqueado e o ataque por terra, saindo da Bahia, passou pelo território de Sergipe, recrutando soldados e reunindo recursos para a guerra. Na antiga Vila Nova, atual Neópolis, organizou-se a repressão, que não permitiu que os revolucionários atravessassem o Rio São Francisco com as suas ideias de liberdade e de independência. A vila alagoana de Penedo passou a ser vigiada, interceptadas as embarcações no Rio São Francisco, impedida toda a comunicação e todo o abastecimento.

Imposta a rendição aos revolucionários, a Coroa Portuguesa restabeleceu seu domínio na região, ao custo de prisões, de execuções, de castigos exemplares, de fugas, do medo. Os habitantes de Sergipe contribuíram para isso, obrigados, os mais pobres, a engrossar os batalhões da Cavalaria e da Infantaria da tropa repressora, enquanto os proprietários contribuíram com cavalos, homens e víveres. Sua participação foi fundamental para a vitória das tropas realistas.

Os historiadores têm procurado entender o porquê desta posição de Sergipe na Revolução Pernambucana de 1817. Felisbelo Freire encontrou explicação na falta de instrução, no atraso mental e moral dos habitantes da Capitania, dominada por senhores exploradores, ligados aos interesses da Bahia; Thetis Nunes opinou que a situação pode ser explicada pela falta de uma burguesia expressiva e pela existência de proprietários de terras que se sentiam ameaçados apenas com a possibilidade de inquietação social, ignorantes das novas ideias de liberdade que se espalhavam pelo mundo, desde que acontecera a Revolução Francesa e as independências das colônias inglesas e espanholas.

As elites de Sergipe ainda estavam voltadas para o seu próprio mundo, limitadas a produzir víveres para o abastecimento da economia açucareira da Bahia.

Três anos depois da vitória realista, em 08 de julho de 1820, Dom João VI, rei de Portugal, Brasil e Algarves assinou a Carta Régia que separou Sergipe da Bahia: uma recompensa aos sergipanos, pela contribuição dada na repressão ao movimento revolucionário? A historiadora Edna Antônio acha que sim.  Segundo ela, há anos existia o plano de reorganização administrativa da Colônia e um dos seus pontos era a autonomia das Capitanias subordinadas: Espírito Santo, Rio Grande do Norte, Santa Catarina, Piauí, Alagoas e Sergipe. Algumas delas já vinham mudando de situação, porque era interessante que todas as Capitanias passassem a ter ligação diretamente com o Rio de Janeiro, a capital de onde emanava o poder do Rei.

Certamente a posição de Sergipe na Revolução apressara a decisão pela separação da Bahia: o Rei quis mostrar a sua gratidão aos súditos fiéis. Mas os ideais revolucionários iriam dificultar a vida dos sergipanos: em 1821 eclodiu a Revolução do Porto, exigindo o retorno da Corte a Portugal.  Contestado o poder absoluto de D. João VI, a Bahia tratou de desrespeitar a Carta Régia, tentando fazer letra morta da Emancipação de Sergipe. Foi preciso esperar a Independência do Brasil, fazendo triunfar a separação entre o Brasil e Portugal, almejada pelos revolucionários, para que Sergipe finalmente fosse reconhecido como Província do Império, definitivamente separada da Bahia. Ah, as ironias da história!