- 21/08/2017 - 15:12

Praça São Francisco: de São Cristóvão para o mundo



Uma semana de eventos comemorativos e reuniões de trabalho marcou a chegada do mês de agosto em São Cristóvão. Em pauta, o aniversário de sete anos da chancela da UNESCO para a Praça São Francisco como Patrimônio da Humanidade. Foi muito positivo perceber, no tom dos eventos, a integração com a comunidade cristovense e a presença de autoridades, de empresários e de manifestações artísticas de diferentes lugares. Mais positivo ainda acompanhar as notícias de que passada a festa, agora se trabalha na sonhada retomada do Festival de Arte de São Cristóvão.
Nem sempre se entende a importância e o significado de termos um bem que é Patrimônio da Humanidade. A Casa do IPHAN e o Comitê Gestor da Praça São Francisco têm atuado neste sentido, mas o alcance desse esforço ainda tem sido limitado. Há uma vaga noção de que o título deveria funcionar como mágica, trazendo recursos para São Cristóvão e para Sergipe. Mas o título não caiu do céu, assim como não cairão do céu os benefícios que ele pode trazer. O Estado de Sergipe e o Município de São Cristóvão têm, na Praça, uma abertura para o mundo, pois agora a Praça São Francisco está ao nível dos grandes monumentos que marcam a história da humanidade e que constituem fonte de riqueza, através do turismo e da projeção mundial, para diversos países.
Mas para isso, é preciso corresponder a certas exigências que possam garantir a preservação daquele Bem cultural e o desenvolvimento da capacidade da cidade em atrair e receber turistas e estudiosos do mundo inteiro. Isso implica obras de saneamento, estruturação do acesso à cidade e da circulação de veículos, iluminação pública, abastecimento, coleta e acondicionamento do lixo, equipamentos de turismo, de educação e de cultura e pessoal instruído e preparado para apresentar a riqueza do patrimônio cultural local. Enfim, os benefícios que podem advir do título exigem que São Cristóvão se organize para apresentar -se como detentora de um bem do Patrimônio Mundial.
A Praça São Francisco manteve sua fisionomia através dos séculos; ela remonta, em suas características, à fase em que Portugal e Espanha foram governados pela Coroa espanhola e é uma amostra do intercâmbio de valores que a União Ibérica proporcionou no mundo colonial. Mas essas características não foram suficientes, sozinhas, para a aquisição do título. Este é fruto de um demorado processo, iniciado em 2004, quando o Governo do Estado fez uma consulta ao IPHAN, neste sentido. Até 2010, quando o título foi concedido, houve muito trabalho e investimentos do Governo Federal e do Estado de Sergipe, em estudos e obras de preservação e a participação do Município e da comunidade de São Cristóvão.
Mas o título também obriga a uma atenção constante em torno do Bem, que é monitorado pela UNESCO através de relatórios constantes. Há obras não concluídas, como a de saneamento que a DESO começou; há o péssimo acesso pela Rodovia João Bebe Água, após os conjuntos habitacionais próximos a Aracaju; há a necessidade de uma brigada do Corpo de Bombeiros e iniciativas para a segurança dos visitantes. Mas há, principalmente, uma população que, até hoje, não pôde usufruir dos benefícios sociais, educacionais, culturais, econômicos e políticos que a chancela da Praça São Francisco pode trazer, porque não soube se apropriar dessa conquista e não foi, até o momento, seriamente preparada para receber e apresentar ao mundo a riqueza cultural que São Cristóvão detém.
Por isso, a mobilização registrada no começo deste agosto é alvissareira. Todos os problemas podem ser colocados em pauta e a discussão sobre a retomada do Festival de Arte de São Cristóvão, o FASC, anima esperanças. O FASC deixou de ser realizado desde 2005. Agora, ele precisa ser redesenhado, para tornar-se compatível com a marca de Patrimônio Mundial. Todas as cidades que têm bens do patrimônio mundial também têm grandes festivais que sustentam a atividade cultural e projetam as cidades para o mundo. Um novo FASC pode tornar São Cristóvão uma referência na pauta cultural. A participação da UFS, detentora da marca FASC, certamente será enriquecedora para a própria Universidade, fazendo-a participar mais de perto do município onde se situa o seu campus original e possibilitando tornar o Festival motivador para os seus cursos da área de Humanas e de Artes; o Estado de Sergipe, que sempre foi partícipe do FASC, pode incrementar a política de turismo e catalisar para o Festival a divulgação da cultura e do patrimônio cultural de Sergipe, retomando o intercâmbio que tanto renovou a cena sergipana em outros tempos; ao Município de São Cristóvão, disposto à retomada do Festival, cabe participar do seu redesenho e negociar apoios, preparando a população durante todo o ano, para viver o ápice das atividades culturais nos dias de Festival. Que venha o FASC, tendo a Praça São Francisco como referência inspiradora!