A arte engajada…veja em quê!

Dia desses eu me peguei pensando no conceito aristotélico de arte, por meio do qual o grande filósofo apontou que arte é mímeses (ou imitação da realidade). Apesar de Platão ter sido o primeiro a falar do fator mimético da arte, Aristóteles cria o conceito artístico de reprodução do mundo real ou visualização da realidade no fazer artístico (eita que hoje eu estou bebendo nas artes).

– Deixe de filosÓfia, André! Entre logo no assunto.

Beleza, chaparral! O negócio é o seguinte: se a arte passa a ser um elemento mimético (imitador da realidade), seguindo a linha de raciocínio de Ari, ela pode servir a um propósito social ou de engajamento social? Na verdade, pode, deve, e sempre foi assim! Os iluministas deram base ao pensamento árcade. Os burgueses bancaram o Romantismo para difundir a forma capitalista e menos racional de encarar a realidade. Vou dar um salto: os modernistas brasileiros criaram sua ‘revolução’ cultural utilizando uma linguagem vanguardista no Brasil e abriram o precedente para a inovação artística constante (apesar de se inspirarem nos movimentos europeus. Ou seja: surfaram na onda da vanguarda).

A música, por exemplo, é um grande vetor de implantação de mentalidades. Que o diga o movimento do rock e a febre de ‘rebeldia’ encarnada sob a égide das canções de Beatles, Rolling Stones; estilo de vida e nova roupagem de moda com Led Zeppelin, Black Sabath, Deep Purple, Iron Maiden (deu vontade de ver e ouvir a Janaína Paschoal cantando ‘The number of the beast’), Metallica, Slayer, Megadeth, Sex Pistols, Ramones … Rapaz, vou ouvir um som pesado hoje!

Saindo do rebelde rock and roll, testemunhamos o Tchan e o pagode da Bahia decifrar corpos e comportamentos sob a forma de dança e sensualidade, pegando carona na lambada (grande Beto Barbosa…deixa o corpo lambar, Kaoma!). a dança do bumbum (que chegou de uma vez!) inaugurou uma fase de exploração explícita da sensualidade elevada ao cubo (exagerei). Mas até aí, beleza, tava tudo certo.

Hoje em dia, o bicho tá pegando. Você já escutou o tal do brega funk? Se já ouviu algo, deve ter percebido o teor de engajamento social impregnado nas letras, ritmos e comportamentos, uma junção sistemática geradora de resultados absurdamente voltados a uma realidade social de morros, favelas e crime organizado. Exagero? Estereótipos foram criados, a exemplo da bandida, cachorra, santinha… comportamentos sexuais determinados com direcionamentos às orgias. Se você tiver curiosidade, procure saber na internet o significado de ‘passar a tropa’ ou ‘passar o bonde’. Vá lá, papai! Uma menina passar o bonde de 10 ou de 20 significa ter relações sexuais com esse número de rapazes na mesma hora (sugiro assistir ao programa de Roberto Cabrini “Os filhos do funk”).

Na música ‘Malandramente’ (Dennis DJ), por exemplo, “…A  menina inocente / Se envolveu com a gente / Só pra poder curtir / Malandramente / Fiz cara de carente / Envolvida com a tropa / Começou a seduzir”… Olha a tropa aí, galera!!! Só que, na canção, a ‘menina’, malandramente, caiu fora e deixou a tropa na mão…

Segue a vibe! Como existem fatores que estão reduzindo o número de recrutados do crime organizado (igrejas cristãs, os confrontos entre bandidos e policiais, mortes promovidas pelos ‘chefes’ etc.), foi preciso criar um mecanismo para atrair jovens para o ‘emprego’. O turn over é grande, então é preciso ter mais pessoas. Fizeram o quê? Usaram o funk para criar o estereótipo de homem que atrai as garotas mais bonitas, inclusive as que moram na Zona Sul e são de classe média. Sabe qual é? Respondo: pele escura, magro, tatuado, cara de bandido. Se possível, com passagem pela polícia, caído em artigos diferentes (artigos do Código Penal Brasileiro). Quando o menino ou adolescente percebe o tipo de homem que está atraindo as mulheres, ‘nego’ pira. Pronto: temos mais um motivado! Aí vem um arsenal de assuntos comportamentais que serviriam de tese para qualquer doutorado em Harvard. O agravante disso tudo é que, em nome do politicamente correto, não há mais filtros sobre o que crianças e adolescentes escutam e vivenciam. Se assim for, é CENSURA! Olha só, rapaz, bora refletir!

O uso de drogas também é uma vertente forte nesse tipo de arte de engajamento social.Quer saber, não quero falar mais. Vou transcrever aqui a letra do funk ‘Tudo no Sigilo’, pérola musical entoada por MC Bianca e Vytinho NG. A POESIA deverá falar por mim e por si só:

“Vytinho NG, aí chavoso
Tu viaja né B?
Tu viaja né B?

Ela viaja nos maloca, os cara que é do corre
Que gera na favela, que pega e não se envolve
Ela é da zona sul, eu sou da zona norte
Vai rolar festinha, brota que o bonde ‘tá forte
Vai rolar festinha, brota que o bonde ‘tá forte

Se acionar a tropa, vai rolar resenha
Tudo no sigilo, tudo no esquema
Se pá tem balão, se pá tem balinha
Vou ficar na onda, vou perder a linha

Na onda do lança tu bota e não cansa
Na onda da bala eu sento na vara
Na onda do boldo, na onda do boldo
Fode, fode gostoso, fode, fode gostoso

Na onda do lança tu bota e não cansa
Na onda da bala eu sento na vara
Na onda do boldo, na onda do boldo
Fode, fode gostoso, fode, fode gostoso

Na onda do lança, lança, lança, lança, lança
Na onda da…”

Glossário para você pesquisar:

– Maloca

– Os cara que é do corre

– Gerar na favela
– Brota

– Bonde tá forte

– Na onda do boldo
– Acionar a tropa

– Vai ter resenha

– Se pá tem balão

– Se pá tem balinha
– Na onda do lança

– Na onda da bala

Autor

André Brito

Outras Notícias