- 14/03/2020 - 05:00

A constância do Ser de Deus

Diante da nossa inconstância, temos a fidelidade eterna de Deus, que nos alcança pelo Seu amor, e, simultaneamente, nos interpela à uma resposta, num, sempre cabível a nós, espírito de conversão.

O Senhor Deus apela a que reconheçam o Seu Ser pelo fato de Sua constância. Diante da ignorância de Moisés, apresenta o Seu nome: “Eu Sou aquele que sou” (Ex 3,13). Tal afirmativa, profundíssima, dá razão à séria reflexão acerca do Ser pleno de Deus e do nosso pequeno ser, que ruma à plenitude. Inspira-nos à contemplação: Deus, por Si mesmo, basta; nós, não: sempre carentes Dele, só poderemos nos reconhecer Nele, porque o nosso ser, se não estiver no Ser de Deus, está no grave perigo da ilusão. Não existe a atitude de ‘ser’ fora de Deus, o Vivente, o Ser por excelência e princípio fontal do que somos.

São João, escrevendo o seu Evangelho, por sete vezes, retomará a teologia do ‘Eu Sou’, retratando a presença salvífica de Deus em Jesus Cristo. Assim, do próprio Senhor, temos as afirmações: “Eu Sou o Pão da Vida” (Jo 6,35.48); “Eu Sou a luz do mundo” (Jo 8,12.9,5); “Antes que Abraão existisse, Eu Sou” (Jo 8,58); “Eu Sou a porta” (Jo 10,9); “Eu Sou a ressurreição e a vida” (Jo 11,25); “Eu Sou o caminho, a verdade e a vida” (Jo 14,6); e, por fim, “Eu Sou a videira verdadeira” (Jo 15,1). Diante da plenitude do Ser de Deus, que nunca se furta a nós, se nos eximirmos do Seu amor, restar-nos-á a fome, a escuridão, o nada, a perdição, a morte eterna.

Mas, o que é conversão senão o movimento do nosso ser à perfeição do Ser de Deus e ao Seu constante e fiel amor? Esta é a reflexão que fazemos juntos, caro leitor, principalmente quando nos ufanamos em pensar que podemos independer de Deus: “Convertei-vos, nos diz o Senhor, porque o Reino dos céus está perto” (Mt 4,17). Na exclusão da conversão, caber-nos-á a morte e a desolação eternas, porque o Senhor mesmo nos garante no Evangelho: “Se não vos converterdes, ireis morrer todos do mesmo modo” (Lc 13,5). Esta morte significa a anulação eterna do nosso ser, pois o inferno é o “lugar” do não-ser perene. Nalguns casos, por vezes, o inferno começa aqui, e muitos não se dão conta, porque vivem adversos Àquele que é o supremo sentido da existência humana; sentem apenas profunda angústia a que querem esconder com o pecado, elegendo ‘anestésicos’ espirituais para um  grande vazio.

No caminho da vida, Deus nos oferece oportunidades mil. Este incansável apostar de Deus em nós vem representado na parábola da figueira: “Pode ser que venha a dar fruto. Se não der, então tu a cortarás” (Lc 13,9). Não desperdicemos o nosso hoje; não deixemos de escutar a voz de Deus, principalmente pela Quaresma, pois, como disse o Papa Bento XVI: [Neste Tempo] “cada um de nós é convidado por Deus a fazer uma mudança na própria existência pensando e vivendo segundo o Evangelho, corrigindo algo no próprio modo de rezar, de agir, de trabalhar e nas relações com os outros” (Homilia de 07 de março de 2010). Não desprezemos tal invitatório divino.