A finalidade do Reino de Cristo neste mundo

No dia 11 de dezembro de 1925, o Santo Padre, o Papa Pio XI, com a sua Carta Encíclica Quas Prima, a segunda do seu pontificado, preceituava, para o último domingo do Ano Litúrgico, a Solenidade de Jesus Cristo, Rei do Universo, com a finalidade de que esta festa, comovendo e ensinando todos os fiéis, impressionando as suas mentes e corações, conhecessem a dignidade régia de Nosso Senhor.

Pio XI ainda aludia que esta presente Solenidade iria fazer frente à um problema de sua época, ou seja, de há quase cem anos, mas que, também, é problema de nossa atualidade: “o laicismo, com seus erros e ímpios incentivos” (Quas Prima, 15). Constatava que “negou-se à Igreja o direito, que deriva do direito de Jesus Cristo, isto é, de ensinar as gentes, de fazer leis, de governar os povos para conduzi-los à felicidade eterna. E aos poucos a religião cristã foi igualada com as falsas religiões e rebaixada indecorosamente ao nível destas. Depois foi submetida ao poder civil e foi deixada como que ao arbítrio dos príncipes e magistrados [do Estado, portanto]. E foi-se ainda mais longe: houve os que pensaram substituir a religião de Cristo com certo sentimento religioso natural” (Ibidem).

As consequências da vã exclusão do teocentrismo (de ter Deus como centro de tudo) foi catastrófica, e continua a ser. Porque foram “as sementes da discórdia espalhadas por todo o lugar; atiçados aqueles ódios e aquelas rivalidades entre os povos, que tanto atraso ainda interpõem ao restabelecimento da paz; a intemperança das paixões, que tão frequentemente se escondem sob as aparências do bem público e do amor pátrio; as discórdias civis que derivam disso, junto com aquele cego e desmedido egoísmo, tão largamente difundido, o qual, tendendo somente ao bem privado e ao próprio cômodo, mede tudo no mesmo pé disso; a paz doméstica profundamente perturbada pelo esquecimento e o descuido dos deveres familiares; infringidas a união e a estabilidade das famílias, e finalmente a própria sociedade sacudida e levada à ruína” (Ibidem). Desta maneira, percebemos que, quando, em vão, o homem e pecado querem anular a majestade de Deus, a desordem impera, tal como lemos no episódio do pecado de Adão, no livro dos Gênesis.

É preciso que nos questionemos, seriamente, se não somos culpados pelo obstáculo que se impõe ao reinado de Cristo. Sim, é-nos válido um profundo exame de consciência, porque “esse estado de coisas talvez deva ser atribuído à apatia ou timidez dos bons, os quais se abstêm da luta ou resistem fracamente. Disso os inimigos da Igreja tiram maior temeridade e audácia. Mas se os fiéis entendem que devem militar com coragem e sempre sob as insígnias de Cristo rei, se esforçarão com ardor apostólico por reconduzir a Deus os rebeldes e ignorantes, e por manterem inviolados os direitos do próprio Deus” (Ibidem).

Esta responsabilidade, que recai sobre nós que dizemos: “Venha a nós o vosso Reino”, apressa e colabora no acontecimento deste Reino principalmente espiritual, onde, para ingressar, os homens “devem preparar-se pela penitência e não podem entrar a não ser pela fé e o batismo, o qual […] significa e produz a regeneração interior” (Quas Prima, 10). Este Reino que, claramente, se opõe ao de Satanás, e é-lhe empecilho; Reino que exige de nós, seus súditos, um espírito livre das coisas deste mundo, um espírito que cultiva costumes ordenados pelo Evangelho; um espírito, por fim, que se nega a si mesmo e toma a Cruz como sua (cf. Lc 9,23-26), esta mesma Cruz com a qual o Cristo nos apascenta.

Esta espiritualidade do Reino deve ingressar, paulatina e solenemente, de maneira que nada, absolutamente, lhe resista, tomando todo o universo, fomentando toda a sociedade, porque tudo está sob o poder de Cristo. Somente o Divino Rei “é o autor da prosperidade e da verdadeira felicidade, quer para cada cidadão, quer para os Estados [que devem] prestar testemunho público de reverência e de obediência ao império de Cristo junto com os seus povos, se quiserem a incolumidade do seu poder, o incremento e o progresso da pátria” (Ibidem, 11). Sem este poder divino e salutar deriva-se “uma perturbação geral da sociedade, a qual já não se apóia sobre os seus eixos cardeais naturais” (Encíclica Ubi Arcano).

Independentemente do querer humano, Cristo reina. Este Seu reinado, como já afirmei, é caminho de felicidade para os indivíduos, para as famílias e para a sociedade. Querer que Cristo reine é cura de tantas feridas, é fortalecimento do direito, é o fim de toda a violência contra a vida, é desejo de paz, é combate aos diversos tipos de miséria, é proclamação de que Nosso Senhor Jesus Cristo vive e reina na glória de Deus Pai.

Autor

Pe. Everson Fonseca

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