A prisão dos bens e das aparências

Vaidade e ganância: eis dois vícios muito nocivos à vida do cristão, daquele que se esmera pela santidade.

Do latim vanitas, vaidade designa a ideia, de ociosidade, de vazio interior, como também nos inspira o conceito de ostentação (ou seja: exibição inútil, vã); de estar refém de prazeres mundanos; de desperdício. Já o termo ganância, afim da vaidade, refere-se ao desejo de avidez de lucro, de dinheiro, de vantagens. O interessante é que, escrevendo aos Colossenses, São Paulo também nos oferece uma lista de defeitos, os quais deveremos coibir em nosso coração cristão, e que, de certa maneira, se ligam à vaidade e à ganância: “Fazei morrer o que em vós pertence à terra: imoralidade, impureza, paixão, maus desejos e a cobiça, que é idolatria. Não mintais uns aos outros” (Cl 3,5.9a).

Todos os defeitos devem ser combatidos com as virtudes, que são forças sobrenaturais para que o coração humano, fortificado, lute contra o que, em si, no seu interior, vai de encontro ao querido por Deus, a nossa santificação e, com esta, a nossa verdadeira felicidade. Santo Tomás de Aquino receitará a generosidade e a justiça para o combate da avareza, da ganância, ao que a humildade é remédio para a vaidade, para a soberba.

Disse Jesus que “a vida do homem não consiste na abundância de bens” (Lc 12,15). Com isto, adverte-nos o Senhor de que a materialidade deste mundo e os seus prazeres não podem orientar a nossa existência, como muitos assim o pensam. Vejam: se as pessoas buscassem com grande tenacidade os bens da alma, e, portanto, os eternos, como buscam as aparências, o glamour, os patrimônios deste século, com certeza a lógica mundana não seria regida pelas frivolidades, pelo banal, pelo pecado, pois haveria em muitos o esforço para alcançarem a salvação: “Se ressuscitastes com Cristo, esforçai-vos por alcançar o que é do alto, onde está Cristo, sentado à direita de Deus; aspirai às coisas celestes e não às coisas terrestres” (Cl 3,1-2).

Perguntamos, por exemplo: qual é a meta de uma vida tranquila, apregoada como “vidão”? Desfrutar o máximo que puder, trabalhar pouco, comer, beber, lucrar, enfim, ter uma vida cômoda, prazerosa, dispondo de reservas para longos anos (cf. Lc 12,19)… “Tudo o que não se constrói sobre Deus está falsamente construído. A segurança que os bens materiais podem dar é frágil e além disso insuficiente, porque a nossa vida não é plena a não ser em Deus” (Mons. Francisco Carvajal. Falar com Deus, vol. 4, página 244). Desculpem-me a franqueza: no cemitério, temos muitas amostras de como a ganância e a vaidade não nos asseguram nada, absolutamente.

Estas nossas linhas, assim como a Doutrina Social da Igreja, não demoniza o ter. Isto porque, “se os bens que temos e utilizamos se orientam para a glória de Deus, saberemos utilizá-los com desprendimento e não nos queixaremos se alguma vez vêm a faltar-nos. Quando o Senhor quer ou permite que nos falte alguma coisa, isso não nos arrebatará a alegria. […] e saberemos repartir com os outros o muito e o pouco que venhamos a possuir e que outros não possuem” (Ibidem, 246). Naquela mesma dinâmica do justo Jó: “O Senhor deu, o Senhor tirou; como foi do agrado do Senhor, assim aconteceu. Bendito seja o Nome do Senhor” (1,21).

As lições que deixamos hoje são válidas para uma alma liberta por Cristo, que quer alçar voo para Deus. Assumamos, corajosamente, o desapego para ganharmos Deus, nosso Tudo.

Autor

Pe. Everson Fonseca

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