Agnaldo Timóteo na casa de Irene

Devo ao meu saudoso pai, José Almeida Monteiro, o gosto por uma representação da música popular brasileira que além de possuir os melhores autores, também estrelam grandes intérpretes. Nesse sentido, destaco dois em especial que não presenciei ou ao menos não me recordo de vê-lo ouvindo-os, mas minha mãe fazia questão de dizer que eram os seus preferidos: Altemar Dutra e Nelson Gonçalves.

Meu primeiro contato com a obra de Nelson Gonçalves foi anterior à Altemar Dutra, sendo este meu predileto. Meu irmão mais velho, José Cláudio Monteiro, tinha o LP “A volta do boêmio” (1967). Eu o ouvi diversas vezes antes mesmo da adolescência chegar. Do repertório daquele disco, curto particularmente a canção “Deusa do Asfalto” (Adelino Moreira).

As canções “Brigas” (1966) e “Sentimental Demais” (1978) foram as primeiras de que tenho lembrança de ter tido a primeira experiência auditiva com Altemar Dutra. Foi amor à primeira audiência. Fiquei encantado não somente com as interpretações, mas também com a impostação da voz. Até hoje, não passo uma única semana sem visitar seu repertório e tenho por “As flores do jardim da nossa casa” (Erasmo/Roberto, 1969) um carinho muito especial.

O tempo e o amadurecimento me permitiram a partir de Nelson Gonçalves e Altemar Dutra ter acesso a outros artistas do mesmo nível e talento, a exemplo de Noite Ilustrada, Ângela Maria, Dolores Duran, Agnaldo Rayol, Cauby Peixoto, Benito de Paula, Waldik Soriano, Dalva de Oliveira, Néslson Ned, Núbia Lafayette. Quantas estrelas da música brasileira, isso para apenas citar um seleto grupo, afora os que a memória no momento não me permitiu referenciar.

Dessa plêiade, no último final de semana nos despedimos de um cujo legado é imensurável. Mais uma vítima da COVID-19, Agnaldo Timóteo faleceu no Hospital Casa São Bernardo, no Rio de Janeiro, no dia 3 de abril, aos 84 anos de idade. Ele esteve internado desde o dia 17 de março e não resistiu às complicações provocadas pela infecção do vírus maldito que tantos estragos têm feito ao país.

Mineiro de Caratingua, Agnaldo Timóteo nasceu no dia 16 de outubro de 1936. Até os anos 60, foi torneiro mecânico. Inspirado por Ângela Maria, mudou-se para o Rio de Janeiro para iniciar carreira como intérprete e cantor. Começou pelos rádios e aos poucos foi inserido na cena artística da época, conhecendo pessoas como Roberto Carlos. Chegou a ser motorista de Ângela Maria, grande responsável por sua ascensão musical.

Até 1967, ele já havia gravado quatro discos. Foi com o sucesso “Meu Grito” (Roberto Carlos) que ele estourou de vez. Sua ascensão foi meteórica e sempre esteve no auge, colecionando recordes e polêmicas também e vendo a sua popularidade crescer vertiginosamente. Mais tarde, isso lhe garantiu entrar na vida pública, tendo sido Deputado Federal (1983-1987) e (1995-1996), Deputado Estadual pelo Rio de Janeiro (1997-2000) e Vereador (2004-2012).

Entre os sucessos, tais como “A casa do sol nascente” (1965), “A casa do sol nascente” (1965), “Os verdes campos da minha terra” (1968), “Os brutos também amam” (1972), “Mamãe” (1983), penso que “A casa de Irene”, canção original do cantor italiano Domenico Colarossi (A Casa d’Irene, 1964), é o seu grande legado musical, sua magistral interpretação.

A versão em português está em seu primeiro disco “Surge um astro” (1965). Atemporal e muito oportuna para nosso tempo de pandemia e também relativa à sua partida, sobretudo no trecho que ressalto a seguir: “Os dias tristes / São como uma longa rua silenciosa / De uma cidade deserta / Deserta e sem céu”. Que Agnaldo Timóteo tenha em fim encontrado alento para as dores de amor que tanto e tão bem cantava com sua voz imortal.

Autor

Claudefranklin Monteiro Santos

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