- 13/08/2019 - 17:14

Alto risco

É muito comum ouvir algumas mulheres dizendo que não se importam em relação ao câncer de mama pois não possuem história na família da doença, deixando inclusive de realizar seus exames preventivos.

Será que é simples assim ? Apesar de sempre perguntarmos e ressaltarmos a presença de antecedentes familiares, a grande maioria das mulheres que desenvolvem câncer de mama não tem nenhum parente próximo com a doença. Então porquê se preocupar com isso ?

Na família

Estima-se que cerca de 95 % das mulheres que desenvolvem o câncer de mama não possuem nenhum tipo de história familiar. A enorme maioria apresenta o tipo de tumor que chamamos de esporádico , aquele sem uma justificativa hereditária que responda aquela pergunta tão frequente : porquê comigo ?

Há uma tendência multifatorial de aparecimento do câncer de mama não relacionado a alterações genéticas. A alimentação baseada em carboidratos de baixo valor nutritivo na maioria das vezes industrializados, associado ao sedentarismo, a obesidade, ao estresse e a mudança de estilo de vida da mulher tem sido os fatores mais comumente relacionados ao aparecimento da doença, enquanto a taxa de mutações genéticas mantêm-se constante sendo responsável por  cerca 5% dos casos.

Como sei se tenho mutação ?

Falar disso há 10 anos era praticamente responder a um sorteio de loteria.

Do ponto de vista clínico nos baseamos em alguns dados da história familiar individual para poder traçar uma estimativa de risco de mutação genética. Os principais fatores são :

-Dois ou mais parentes de primeiro grau ( pais, irmas ou filhas ) ou de segundo grau ( neta, avó, tia, sobrinha, meio-irmão)

-Câncer de mama antes dos 50 anos( pré-menopausa) em um parente de primeiro grau

-História familiar de câncer de mama e ovário

-Um ou mais parentes com dois tumores  ( de mama e de ovário ou dois tumores mamários independentes)

-Parentes do sexo masculino com câncer de mama

Uma história familiar assim nos faz suspeitar em um gene errático de alta penetrância que pode ser responsável por uma doença hereditária. Antes ficávamos na suspeita. Atualmente nós testamos.

O teste genético

Hoje uma gota de sangue ou de saliva pode nos dar muita informação em relação a presença de alterações genéticas. Apesar de serem relativamente pouco frequentes, portadores dessas alterações possuem um risco que pode chegar em 80% de chance de desenvolver um câncer de mama. Essa mulher, oficialmente alto risco, pode ser submetida a medidas redutoras de risco que incluem o uso de medicações que bloqueiam hormônios até medidas mais drásticas como a retirada cirúrgica do tecido glandular mamário e sua substituição total por próteses de silicone, procedimento que ganhou notoriedade mundial após a atriz Angelina Jolie ter compartilhado sua experiência por ter realizado a cirurgia.

Efeito Angelina

Após o artigo publicado pelo New York Times em 2015, tanto a cirurgia quanto a existência de mutações geneticas tomou proporções globais. Ela realizou a testagem genética que veio positiva para mutação do gene BRCA1 lhe conferindo um risco de 80 % de ter câncer de mama ao longo da vida. Com essa informação, optou pela realização da cirurgia que reduz em 90 % o risco de desenvolvimento da doença.  Nessa época, com toda mídia fazendo a cobertura da história, muitas pacientes procuravam o consultório desejando realizar o mesmo procedimento mesmo sem história familiar ou testagem genética. Será que é simples assim ?

Procedimentos redutores de risco

Qualquer medida preventiva tem seus efeito colaterais  e por esse motivo devem ter indicação restrita a quem realmente irá se beneficiar delas.

A medicação está relacionada a sintomas menopausais, a alterações uterinas, aumento de risco de trombose entre outros. O procedimento cirúrgico tem um considerável índice de complicações e pode levar a algum grau de limitação funcional. Se você tiver 80% de chance de ter câncer da mama, vale a pena correr o risco. Mas e se não tiver ?

Controle rigoroso

A rotina da paciente de alto risco inclui a avaliação semestral com mamografia e ultrassonografia alternando com ressonância magnética. Esse protocolo tem como objetivo realizar diagnostico precoce de qualquer alteração e permitir uma intervenção rápida para que se alcance a cura oncológica. Agora calma, a minoria das pacientes precisam ser testadas e submetidas a medidas como essa, mas a atenção deve ser rotina da mulher independente de testes genéticos.

Quem deve testar ?

Pacientes com antecedentes familiares que preencham os quesitos descritos anteriormente devem ser testadas, se desejarem.  Alguns planos de saúde realizam a cobertura desse exame quando a paciente se encaixa neles.

No novo modelo de medicina que vem se desenhando, a testagem genética sera rotina não só para avaliação de tumores de mama, mas de uma grande parte deles.

Converse com seu médico e tire suas dúvidas sobre as novas tecnologias que vem aparecendo e enriquecendo nosso conhecimento com informações que podem salvar vidas.

Até semana que vem !