Bora lá no Senadinho!

Dia desses resolvi fazer um passeio, daqueles que servem para tirar das costas o peso da rotina, da mesmice indelével do modus vivendi da nossa realidade…(vou parar porque filosofei demais). Aí você pensa:

– Vai às Maldivas? Ao Caribe? Ao Poço das Moças?

-Gostaria. Mas, desta vez, vou ao Calçadão da João Pessoa!

Nem torça o bico. Fui dar um rolé (rolê se fala no Sudeste) no Calçadão, ver o movimento, engraxar os sapatos e comer um bolinho de bacalhau na lanchonete do português. Pra mim, ganhei o dia. Ver a cidade viva é um privilégio. Depois desses dias maus que vivenciamos nos últimos meses, o simples virou joia rara.

Pois bem, fui lá, sentei na cadeira para engraxar o pisante. Parecia que eu estava num trono de ostentação patente e potente. O grande Ninho, há 27 anos exercendo a profissão (começou aos 12), deu um grau topado. O sapato brilhava mais do que o sol de Aracaju em dia sem nuvens no céu. Ficou novinho! Grande Ninho, vou voltar!

Enquanto o grau era dado, observei que as pessoas passam absortas, como se o tempo parasse. Vi também que muitas lojas mantêm as fachadas de cima intactas, revelando a bela arquitetura que o passado guarda só pra si, uma egoísta forma de romper a ponte com o presente. As fachadas de hoje são tristes e sem graça.

Reparei também que estava perto do ponto de encontro da galera da velha guarda, enclave mais conhecido como “Senadinho”. A conversa girou em torno de pesquisa política para prefeitura de Aracaju, Coronavírus, vacina contra a peste chinesa, Bolsonaro, Trump, arroz baixando, novinhas e o som alto da rádio Comércio. Tudo isso durante o tempo do engraxar.

Concordei com muita coisa, exceto com o som da rádio. Na minha opinião, estava pior do que eles reclamavam. Mudem a música aí!

Mas o que de mais relevante que pude notar: o próprio aracajuano não enxerga suas coisas boas. É como se a vida passasse despercebida porque as pessoas estão desapercebidas (se ligue nos parônimos). Isso me lembrou uma conversa que tive com meu amigo italiano Sergio Buonamassa, conhecido no meio peladístico como Beck (abreviação de Beckenbauer, o craque alemão setentista).  O papo girou em torno de como ele gosta das coisas simples daqui: uma caminhada no Calçadão, uma cervejinha no mercado de artesanatos, um banho em Atalaia…

Faz tempo que não ouço alguém daqui falando, sequer, que conhece as coisas que são nossas. Parece que precisamos que alguém valorize o que é nosso pra nós começarmos a dar valor. É isso?

Preciso ir mais vezes ao Senadinho!

Autor

André Brito

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