Caverna de Platão

Essa semana fui novamente exposta ao “golpe do WhatsApp “. Trata-se de uma pessoa ou grupo que utilizando um número de telefone diferente do seu, adiciona ao perfil uma foto sua e envia para seus contatos mensagens com histórias diferentes solicitando em caráter emergencial ajuda financeira para pagamentos de boletos ou transferências bancárias. Como esse grupo tem acesso aos contatos pessoais e até grau de parentesco das vítimas permanece uma incógnita. A Polícia Civil refere que há um mercado de venda de cadastros e informações pessoais que são utilizados frequentemente para golpes como esse. Se nas mídias sociais estamos virando o produto, nossas informações pessoais agora são commodities.

Há cerca de dois meses me ligaram com um discurso todo bem desenhando me convidando para participar de uma entrevista sobre câncer de mama em uma emissora de TV. Já tínhamos agendado dia e horário quando o suposto jornalista pediu para que eu enviasse o código que havia sido mandado por SMS no meu telefone para que eu tivesse acesso ao estúdio. Alerta vermelho, disse que retornaria a ligação e o farsante desligou.

Atendo em um ambulatório do SUS semanalmente por ideologia pura. Chamei uma paciente para atendimento que veio com encaminhamento e toda ficha preenchida adequadamente. Ao final da consulta, quando ia realizar a solicitação dos exames, fui informada pela paciente que ela não era a pessoa cujos dados estavam na ficha. Como a paciente agendada não compareceria a consulta, outra se fez passar por ela para receber atendimento. Quando viu que os exames seriam no nome que não o dela, falou a verdade sem constrangimento algum. Não preciso entrar nem no mérito legal do que poderia ser causado com a emissão de um documento ou atestado em uma situação como essa.

Nunca a verdade e a mentira foram tão emaranhadas a ponto de não sabermos no que acreditar. Estamos entrando em um estado catatônico onde a percepção individual pode estar sendo manipulada a todo instante, e a referência do real e irreal sendo perdida.

Caverna de Platão

O filósofo grego já questionava a percepção da realidade quando escreveu a alegoria do mito da Caverna. Pessoas presas enfileiradas lado a lado e sem poder se ver ou se mover olhando fixo somente para uma parede da caverna. Uma fogueira por trás criando a sombra de objetos e pessoas que por ali passavam e as vozes ecoadas pareciam vir das sombras.  Para essas pessoas, as sombras eram a realidade.

Conhecido como uma série de filmes, a matrix também é um conceito filosófico onde há uma simulação de mundo imaginário e as pessoas são prisioneiras de uma falsa realidade, para elas a única realidade. Em um mundo cada vez mais virtualizado, algorítimos cada vez mais complexos e análises de BIG DATA em crescimento exponencial somos absurdamente expostos a dados e informações que não podem ser verificadas ou classificadas como real ou irreal, mentira ou verdade. Seja no golpe do WhatsApp ou na simples falsidade ideológica de assumir outra identidade para passar em uma consulta, vemos que a índole humana pode nos levar a um cenário não mais subjetivo, mas sim manipulado.

Caminho sem volta

A inteligência artificial, assim como a internet e as redes sociais começam a ser desenvolvidas com argumentos e propósitos altruístas, como ferramentas que podem ser utilizadas positivamente no desenvolvimento da humanidade. Contudo, a dualidade vai criar o ponto e o contra-ponto, a oportunidade e o perigo. Estar atento a veracidade de informações e saber que elas podem e estão sendo utilizadas para obtenção de vantagens já é um passo importante na prevenção de eventos criminosos. Converse com sua família sobre o assunto, criem códigos e maneiras de se identificarem realmente como você, por que o você, pode não ser mais seu. Até semana que vem !

Autor

Paula Saab

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