Com as próprias mãos

Quando criança, até à altura da adolescência, costumava sair das sessões de Bruce Lee ou Superman, no antigo Cine Teatro Glória, querendo dar borrada no primeiro canalha que cruzasse o meu caminho, preferencialmente se fosse malfeitor ou um daqueles grandalhões que intimidavam os menores com sua força física e truculência. Ficava imaginando golpes, com voadoras milimetricamente calculadas, com o propósito de fazer justiça.

Um dos meus brinquedos favoritos era uma réplica de uma Mauser preta, com carregador e munição. Parecia tão real, que os adultos ficavam curiosos e sempre queriam manuseá-la. Na minha imaginação, com a arma em punho, criava vilões e situações as mais diversas, me safando delas com o poder bélico do armamento. Fã de faroeste, vivia às voltas com aquele brinquedo, nas mãos ou na cintura.

À medida que o tempo passava, minhas brincadeiras mudavam, mas a inclinação para diversões que envolvessem algum tipo de violência fazia parte de meu cotidiano. Perdi as contas das vezes que joguei Doom e as inúmeras fases que ultrapassei no game. Personagens como Rambo se somavam a outros, a exemplo dos agentes do Esquadrão Classe A e do agente secreto James Bond, habitando meu imaginário e minhas preferências cinematográficas.

Contrariando alguns setores da psicologia e mesmo da psiquiatria, cresci mentalmente saudável e não precisei matar ninguém ou criar confusões para sair na mão com quem quer fosse, mesmo quem merecesse um bom cruzado de direita no meio dos olhos. Tornei-me um sujeito pacífico e amante da vida. Porém, o senso e a sede de justiça de meus heróis imaginários e brincadeiras seguiram comigo

O Cristianismo me ensinou que a lógica do dente por dente e olho por olho não é a das mais inteligentes e não aplaca nosso desejo de justiça. Entendi, com o tempo, que os canalhas sempre se dão mal, de alguma forma e em algum momento. Eliminá-los não faz justiça, mas cria um círculo vicioso de ódio e de vingança que não faz bem nem à alma e muito menos ao corpo. Assim, bandido bom não é bandido morto. Bandido bom é bandido vivo e preso, pagando por seus crimes e sentindo o peso das leis naturais, humanas e, sobretudo, as divinas.

Acontece que o nosso tempo vem sendo marcado por uma tônica bastante preocupante, para não dizer aterrorizadora e de certo modo, também suicida. O culto às armas e à violência está crescendo em todos os níveis e alcançou o poder público e querem contaminar as políticas públicas de segurança. A história mostrou e mostra que esse tipo de ideologia não resolve os problemas, fosse assim a Revolução Francesa teria sido um sucesso e a pena de morte extinguiria ou amenizaria a ascensão crescente da criminalidade e da violência nos Estados Unidos da América.

Os quadrinhos há muito tempo trazem essa discussão, sobretudo os vilões e heróis da Marvel e da DC Comics. Bruce Wayne viu seus pais sendo assassinados a sangue frio por assaltantes. Ele cresceu e se transformou no Batman, com o conhecido código de honra de não matar seus inimigos. De igual modo o personagem Demolidor, um advogado cego, Matt Murdock, com habilidades de luta, que persegue, detona e prende os malfeitores, sem eliminá-los. Diferentemente do Justiceiro, um fuzileiro que viu sua família (mulher e filhos) serem assassinados por uma disputa de gangues. Frank Castle usa outro tipo de código e fez da sua dor e vida uma missão de eliminar os vilões usando todo seu conhecimento de guerra e o uso de armas.

Em linhas gerais, eliminando ou não malfeitores, todos eles são movidos pela necessidade de fazer justiça com as próprias mãos. Ao meu ver, quando uma sociedade chega a esse nível é porque ela está adoecendo gravemente e a Justiça já não dá conta de fazer justiça, contribuindo para um clima de impunidade e de revolta que encontra eco no ímpeto natural de fazer alguma coisa para aplacar as humilhações e os lutos.

Somente um judiciário correto, com leis mais justas e firmes e um sistema policial e penitenciário competentes e incorruptíveis farão frente à lógica justiceira dos nossos dias. As pessoas precisam se sentir seguras pelas instituições e não, necessariamente, com uma arma na mão. Até porque, nem todos têm cabeça para portá-la e fazer o seu uso adequado.

Autor

Claudefranklin Monteiro Santos

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