Controle de danos

Essa semana nos deparamos com algumas notícias inesperadas. Minas Gerais, antes com poucos casos da COVID19 e com o governador se gabando de sua gestão profissional começa a evoluir com um aumento assustador do número de casos da doença. Cidades como Porto Alegre e Curitiba que gozavam de uma rotina praticamente normal entram em isolamento social e assustam a população. Aqui em Sergipe, o plano de retomada econômica é adiado por mais uma semana, pelo menos. A realidade da epidemiologia deste vírus traiçoeiro se coloca a frente de qualquer modelo de gestão e se consolida como o maior desafio enfrentado pela humanidade neste século.

A dura realidade

É verdade que o número de casos aumenta de maneira exponencial em nosso Estado, assim como em outros lugares. Como já previsto nesta coluna, o caos iria chegar. Se já chegamos ao topo dele ou não, só os próximos dias irão dizer. Hospitais lotados, UTIs lotadas, equipe desgastada , medicações com risco de falta no mercado. Essa foi a realidade da última semana e talvez de algumas próximas. Foi a população que não contribuiu ou foi a gestão que não fez sua parte ?  Sempre buscamos um culpado e esquecemos que o culpado é uma entidade biológica que lembrou a humanidade de que estamos absolutamente vulneráveis a fenômenos naturais dentro de uma organização social extremamente frágil.

Maktub

O conceito do “ já estava escrito “ pode soar um pouco conformista em termos de filosofia, mas se aplica completamente a epidemia da COVID19. Qualquer ação humana viável é incapaz de barrar o avanço da pandemia e o padecimento da humanidade está se desenhando como uma grande tragédia na nossa história. Barrar o avanço não quer dizer que não possamos fazer nada. A doença está cada dia mais conhecida e os resultados das medidas de suporte tem trazido alguma melhora dos resultados. Há luz no fim do túnel mas é o binômio gestão e sociedade tem que estar prontos para fazer concessões e inovar em suas ações.

Mudanças de Paradigmas

Criamos conceitos sociais e estruturas organizacionais que se consolidaram com séculos de história, de projetos , leis , portarias, acordos e pactuações extremamente burocráticos e amarrados. Esse modelo de gestão é herança da colonização portuguesa “ aperfeiçoada “ através do tempo pelo modelo exploratório ao qual o Brasil foi submetido. Os países com melhores resultados serão sempre aqueles mais flexíveis para a mudança de filosofia e implantação de novas estratégias. Enquanto tivermos a mesma visão para enxergar um desafio novo, teremos resultados ruins.

Controle de Danos

Na cirurgia geral, quando recebemos um paciente em estado gravíssimo e com múltiplas lesões fazemos aquilo que chamamos de “ damage control “. Utilizam-se estratégias para reparo urgente das condições básicas de vida, e  num segundo momento com o paciente mais estável, realizamos os reparos anatômicos e definitivos. É esse mesmo pensamento que a situação da epidemia de COVID19 exige. Temos que enxergar a urgência em dois pilares que necessitam de estratégia e ações urgentes, a econômica e a de saúde.

A estrutura gerencial tem que se reinventar e se flexibilizar para manter a integridade econômica e de saúde. Planos de financiamento onde bancos irão abrir mão de seus lucros e tomadores terão prazos estendidos para pagamento. Impostos sobre funcionários tem que ser repensados e omitidos neste momento calamitoso. Locatários tem que flexibilizar a locação. Empresas tem que conseguir sobreviver até se redesenharem a esse novo cenário de virtualização. A saúde tem que ser encarada com um novo olhar e novas pactuações entre Município/Estado/ Governo Federal tem que ser viabilizadas e novos fluxos construídos. Não podemos parar de cuidar de pessoas com doenças cuja cura conhecemos ! Todo sistema tem que ser reconstruído de maneira rápida e com outro olhar ou o período pós pandemia será pior que a pandemia propriamente dita.

Até semana que vem.

Autor

Paula Saab

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