Fazendo a diferença

Dia desses meu doguinho xodozista Toquinho me olhava como quem me inquiria solenemente, clamando para dar um rolezinho filé na praça em frente onde moramos. Seu olhar me dizia mais coisas que o livro “Os miseráveis”, de Victor Hugo, em suas mais de 800 páginas de pura literatura top. Entendi aquele olhar de petição e, prontamente, atendi.

Toquinho se deliciava nas suas andanças e mijadas, marcando o território, numa linguagem própria de quem não precisa de palavras para se comunicar. Entre os deságues do meu pet canino, percebi um garoto, aparentando uns 10 anos, tentando calorosamente alçar voo em sua pipa, a qual teimava em não subir. Duas informações me chamaram a atenção para a cena: uma pipa e um menino soltando pipa, algo raro hoje em dia, tempo em que os brinquedos digitais dominam a mente e o corpo das crianças pós-modernas.

Percebi claramente que o pequeno Santos Dumont não lograva êxito na sua empreitada (filosofei) por falta de conhecimento da ação de soltar pipa. Parecia a raposinha saltando querendo as uvas, extenuada de tanto saltar, sem consegui-las. Percebi o momento e, de súbito, dirigi-me ao já triste moleque.

– Ei, rapaz, não é assim que solta pipa não. Tá sem vento, mas dá pra soltar. Basta a estratégia certa, disse pro guri, que ouvia atentamente cada palavra que eu proferia.

– E como é?, retrucou o pequeno aprendiz de piloto de pipas.

Expliquei-lhe que, quando não há vento suficiente para levantar o brinquedo, é necessário que alguém segure a pipa enquanto outra pessoa dá linha (expressão para designar a quantidade de linha e a distância). Em seguida, basta soltar o objeto voador identificado e a pessoa que está no comando correr, fazendo com que a pipa alce voo.

Ele ouviu tudo. Perguntei se havia entendido. Disse que sim. Então lhe disse para colocar a teoria em prática. Assim ele o fez. De longe, acompanhei o desenvolvimento do meu aprendiz de soltador de pipas. Foram inúmeras as tentativas. Vi sua carinha de desânimo ao longo da trajetória. Mas via também a sua gana de ver aquela pipa no alto.

De tanto insistir e usar as estratégias corretas, Marcos (este é o seu nome), finalmente, viu sua doce e amada pipa dançar ao sabor do vento, ilustre como uma rainha no baile. Seu sorriso transfigurava sucesso e alegria. O meu, uma felicidade indescritível porque havia feito a diferença na vida de alguém.

Autor

André Brito

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