Ilma Fontes: A destemida sergipana permanece viva

No último dia 03.04.2021, Sergipe perdeu uma das maiores agitadoras culturais que já se viu aportar por aqui em nosso belo Quadrado de Pirro. O universo intelectual, jornalístico, médico, cultural e artístico fez-se mais vazio após a sua partida. Não pensemos que pelo seu fenecimento terrestre, a Ilma de sensibilidade lancinante desvanece. Muito pelo contrário, está mais vívida do que nunca. Não é qualquer Mulher que edifica um legado inolvidável tecido com muita ousadia por mais de cinco décadas na seara jornalística sergipana, do Brasil e do mundo. 

Ilma Fontes colaborou com mais de cem números de antologias nacionais, chegando a publicar em países mundo afora como Portugal, Itália, Tunísia e Grécia. Suas corajosas letras alcançaram também a Coréia e à China. Fez legado indelével na clássica TV Aperipê, onde roteirizou e dirigiu a primeira minissérie feita por uma TV Educativa, fora do eixo Rio-São Paulo, intitulada ‘A Última Semana de Lampião’. Editou brilhantemente o vanguardista ‘O Capitão’, jornal cultural que influenciou sucedâneas gerações. Atuou como curadora do Espaço Cultural da Assembleia Legislativa de Sergipe, durante os anos de 2003 a 2017. 

Sua verve poética se refletiu como a cineasta que abalou as estruturas conservadoras sergipanas, ao ter lançado numa antológica noite do ano 1980 seu audacioso curta-metragem ‘O Beijo’ junto com Yoya Wursch que o dirigiu e roteirizou. Um beijo lésbico naquela época só poderia ser veiculado pelas mãos de Ilma que nunca temeu nada nem ninguém. Jamais se deixou esmorecer pelo conspícuo preconceito que sofreu ao longo do tempo, úlcera nefasta que penitencia os artistas e a arte local em geral. Sua luta, persistência são dignas do mais alto louvor. A médica psiquiatra e legista era defensora irrefreável do Teatro, reverenciava como ninguém os atores e diretores da nossa formidável ambiência telúrica. 

A resistente ao ordinário concebia a atmosfera circundante com arguciosa ironia. Esse genial e lúcido sarcasmo era muito proveniente da influência quando esteve ligada ao movimento da poesia concreta ou marginalizada dos efervescentes anos 70. Ilma Fontes fundou alguns jornais, como o ‘Pipiri’, trabalhou por mais de oito anos na mítica ‘Revista Aracaju Magazini’, atuou na ‘Gazeta de Sergipe’. Entre tantas maravilhosas publicações esculpidas pela sua inerente genialidade, podemos elencar: ‘Melhor de Três – Roteiros para Cinema’ e a ‘Fúria da Raça’. Ilma escreveu, produziu e dirigiu junto com Uoya Wurch, ‘Arcanos (O Jogo)’. 

Nos gloriosos tempos de ‘Folha da Praia’, Ilma Fontes se destacou com sua briosa Coluna, sendo dinâmica editora assistente. Foi diretora da Clínica Adauto Botelho, na área da cultura, presidiu o Conselho Municipal de Cultura, a Funcaju, foi vice-presidente do Conselho Municipal de Cultura, atuou como Membro do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, além de compor quadro na Sociedade de Cultura, do Sindicato dos Jornalistas e Radialistas de Sergipe. Fundou a Associação Sergipana de Psiquiatria. Seu mais recente livro foi o catálogo artístico, intitulado ‘Álvaro Santos – Memórias’. 

Neste último dia 10.04.2021 faria aniversário completando 74 anos. Todos a parabenizamos, pois a Sergipanidade pode doer como ela mencionava em seus poemas – mas creio que não só eu, como todos os conterrâneos acreditam que Ilma Fontes, a destemida sergipana permanece viva e sempre vai ser a quintessência cura para a aflição existencial que nos aflige cotidianamente. 

Viva Ilma Fontes, João Oliva, Amaral Cavalcante nossos imorredouros Tesouros. 

Autor

Igor Salmeron

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