Joãozinho Barbeiro e a sua cadeira lendária

Se há uma coisa que gosto nessa vida, entre as mais comuns, é cortar o cabelo. Ir ao barbeiro é o mesmo que sentar-se num divã ou mesmo num banco de um confessionário. Ali, a conversa flui solta e sem convenções sociais, o papo é atualizado e fazemos novos amigos. A cadeira de um barbeiro é um celeiro de memórias e de histórias, cujo tempo se encarrega de esquecer, rememorar ou imortalizar.

Eu corto meu cabelo e eventualmente faço também a barba com Seu Carlos, na avenida Santo Antônio, 238, em Lagarto-SE. Experimentado no ofício por mais de vinte anos, ele cultiva de forma singular o hábito de ter em seu salão objetos de valor histórico, como vitrolas, LPs, cofre de ferro, móveis antigos, boa parte deles do acervo deixado pelo saudoso Maninho de Zilá, herdados por morte de sua viúva, Dona Isaura, tia de Carlos.

Na última vez que estive por lá, um objeto em especial chamou a minha atenção. Trata-se uma cadeira de barbeiro, de cor vermelha, de base arredondada em formato de corneta, com bancos, apoios e braços de couro e madeira, encosto reclinável, com base para os pés em metal fundido da marca Irmãos Campanile. A fábrica, também especializada em cadeira de dentista, ficava em São Paulo, na rua Aurora 12-14. Segundo consta, esse tipo de cadeira deixou de ser fabricada nos anos 50. Há informações que a empresa fosse dos anos 20 ou anterior.

Carlos aprendeu o ofício com João Francisco da Silva, nascido em Lagarto-SE, no dia 14 de junho de 1945. Na cidade, ficou popularmente conhecido por Joãozinho Barbeiro. Começou a trabalhar muito cedo, ainda na adolescência. Primeiro, como ajudante de mecânico com Zé Eletricista, na rua de Simão Dias. No Rio de Janeiro, onde passou uma temporada, observando como se cortava cabelo e se fazia barba, no bairro São Cristóvão, quando aprendeu a técnica básica e retornou para Sergipe em 1965.

No ano seguinte, abriu um salão na Rua Senhor do Bomfim, em Lagarto, onde ficou até 1979. Um de seus fregueses era o saudoso Rosendo Ribeiro Filho, o Ribeirinho, à época Prefeito da cidade. O tradicional líder do grupo político Bole-bole gostou do serviço do jovem barbeiro, mas disse para seu motorista, Seu Tuti, que a cadeira era desconfortável.

Naquela mesma semana, Ribeirinho pediu a seu motorista que fosse a Aracaju procurar um cadeira de barbeiro usada e em bom estado de conservação para presentar Joãozinho. Em troca, a cadeira de seu estabelecimento seria doada a uma pessoa do interior que tivesse começando na profissão. A alegria e a gratidão marcaram a vida de Joãozinho, que cuidou do assento por quase cinquenta anos, doando a Seu Carlos.

Em 1967, Joãozinho casou-se com a irmã do comerciante e político José Corrêa Sobrinho, Maria Benedita Corrêa da Silva (1940-2018). Com ela, teve três filhos: Rogério (1968), Roni Clay (1970) e Rômulo (1975). Em 1979, mudou-se para a avenida Presidente Vargas, onde reside até a presente data. Embora aposentado, ainda exerce o ofício de barbeiro nas horas vagas, tendo como clientes fidelizados, o ex-vereador Euzébio e Márcio Menezes, que afirma jamais ter cortado cabelo com outra pessoa.

Assim como a vida dá voltas, “o mundo cabe numa cadeira de barbeiro” (título de documentário do Canal Curta, dirigido por José Roberto Toredo (2002, 56 minutos). Há alguns anos cortando o cabelo ou fazendo a barba com Seu Carlos, somente desta última vez foi que me dei conta que naquela cadeira eu havia me sentado com pouco menos de cinco anos, na segunda metade do anos 70, para que Joãozinho, a pedido de papai, José Almeida Vieira, fizesse um trato no meu visual capilar, com um tradicional corte de militar, raspado a máquina zero nas laterais e baixo no alto da cabeça.

Autor

Claudefranklin Monteiro Santos

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