Luiz Antônio Barreto e a Sergipanidade

No ano em que Sergipe comemora 200 anos de Emancipação Política da Bahia (1820), a discussão em torno da sergipanidade mais do que oportuna é significativa para pensar a formação de nossa identidade enquanto povo. Nesse sentido, pode-se dizer que ninguém fez isto melhor do que o saudoso Luiz Antônio Barreto. Para além de nos fazer pensar sobre, Luiz nos fez viver e sentir a singularidade de ser sergipano, em que pesem as considerações em contrário.

As questões de pertencimento, de construção da memória e da identidade são complexas. Teóricos como Maurice Halbwachs, Pierre Nora, François Hartog, Aleida Assmann e Michel Pollak, só para citara os mais conhecidos, há anos têm versado sobre o assunto. Via de regra, todo processo identitário passa pela memória coletiva, pelos lugares de memória, pelos fatos sociais, pelas práticas culturais, pelas tradições, costumes e, sobretudo, pelas suscetibilidades da história. Cada povo ou nação busca num cenário de universalidades, pontos de referência que o torna singular e diferente em oposição ao outro.

Nesse movimento de identidade e de alteridade, vão as culturas estabelecendo seus processos de pertencimento, suas particularidades locais, seus laços afetivos e nacionais, sua história e seu modo de ver e encarar a vida e a realidade que as circundam e definem. Considerando que Sergipe não é um lugar autóctone, se fez do desmembramento de outro lugar, debruçar-se sobre a construção de sua identidade tem sido uma tônica nos últimos anos, sobretudo quando se resolveu, em grande medida, a questão das comemorações em torno de duas datas: o 8 de julho e o 24 de outubro.

É fato que a historiografia sergipana e o surgimento de lugares de memória, a exemplo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (1912) e Academia Sergipana de Letras (1929), colaboraram para singularizar Sergipe em alteridade à Bahia. Não somente no plano político, mas também no plano cultural. E esse movimento se fez, sobretudo, pela atuação de nossos estudiosos, artistas e intelectuais, no afã de produzir uma escrita de Sergipe pelos sergipanos, apontando traços particulares de nossa identidade.

Maurice Halbwachs (1877-1945), em seu livro Memória Coletiva (1925) sobre as identidades locais e nacionais afirma: “(…) Admitamos que a história nacional seja um resumo fiel dos acontecimentos mais importantes que modificaram a vida de uma nação. Ela se distingue das histórias locais, provinciais, urbanas, devido a que ela retém somente os fatos que interessam ao conjunto dos cidadãos, ou, se o quisermos, aos cidadãos como membros da nação” (p. 78)

Em célebre artigo intitulado “Sergipanidade, um conceito em construção” (junho de 2011), Luiz Antônio Barreto dissertou com maestria sobre essa ideia de ser uma nação a partir de um lugar do Brasil. E assim, definiu a Sergipanidade da seguinte maneira: “(…) é o conjunto de traços típicos, a manifestação que distingue a identidade dos sergipanos, tornando-o diferente dos demais brasileiros, embora preservando as raízes da história comum. A SERGIPANIDADE inspira condutas e renova compromissos, na representação simbólica da relação dos sergipanos com a terra, e especialmente com a cultura, e tudo o que ela representa como mostruário da experiência e da sensibilidade”.

Luiz, ao preconizar que é o sentimento que manifesto distingue a identidade dos sergipanos, dar escopo semântico ao termo e o completa, para além do que se escreveu direta ou indiretamente a respeito. Estabelece não somente as condições do ser, mas também do sentir-se sergipano, não somente à luz da história, dos cânones das ciências sociais, mas, de modo particular pelas práticas e pelos saberes culturais. E ao dizer que o conceito ainda não está pronto e acabado, posto em construção, abre espaços para novas assertivas e possibilidades e porque não dizer, também para novas sergipanidades.

Autor

Claudefranklin Monteiro Santos

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