Maria Beatriz Nascimento, uma historiadora sergipana

Vítima da invisibilidade, Beatriz Nascimento é uma intelectual que costuma, infelizmente, ser esquecida nos meios estudantis e acadêmicos. Nascida em Aracaju num dia 12 de julho do ano 1942, era a oitava filha do casal Rubina Pereira do Nascimento e de Seu Francisco Xavier do Nascimento. Pelas condições difíceis, sua genealogia familiar teve que migrar para o Cordovil, um bairro localizado no subúrbio carioca. O ano de 1969 marca o ingresso de Beatriz aos 28 anos na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) no curso de História.

A conclusão se deu em 1971. Ao mesmo tempo se dedicou aos estágios junto ao Arquivo Nacional, cujo orientador das suas pesquisas era o renomado historiador Professor José Honório Rodrigues. Logo depois, Beatriz Nascimento se tornou professora da rede estadual fluminense. Sua carreira é pautada pelo diálogo constante entre militância e seara acadêmica. Fundou o Grupo de Trabalho André Rebouças na Universidade Federal Fluminense (UFF). Foi lá que finalizou em 1981 o seu curso de pós-graduação em História do Brasil.

Intelectual negra engajada, esteve na linha de frente na retomada dos movimentos sociais organizados, mantendo vinculação com o Movimento Negro Contra a Discriminação Racial. Se tornou referencial nos estudos sobre a formação dos quilombos no Brasil. Beatriz sempre propôs a defesa pelo reconhecimento da titulação das terras quilombolas. Sabemos que foi precursora nesse sentido, pois o reconhecimento só começou a acontecer de maneira efetiva tempos ulteriores, a partir do ano 1995.

Beatriz Nascimento é também célebre pelo documentário intitulado ‘Orí’, palavra em yorubá que significa ‘cabeça’, sob a epígrafe de mente, inteligência e alma. Foi lançado em 1989, a partir dos textos e da excelente narração de Beatriz. Esse documentário recupera os percursos dos movimentos negros que insurgiram no país entre os anos de 1977 a 1988, tendo os quilombos como fio condutor. Nascimento é ícone no que tange do combate ao racismo lancinante, que evidencia o ‘mito da democracia racial’.

Ademais, seu pensamento foi essencial para compreendermos as práticas de discriminação contra os corpos das mulheres negras e os regimes de subalternidade. Seus escritos também se debruçaram sobre as consequências do racismo na educação, via experiência pessoal e com precisas observações de campo. Pontuou de maneira brilhante sobre a solidão das crianças negras no ensino e as ações racistas contra os corpos nos âmbitos escolares.

A prolífica teórica sergipana se realça, principalmente no trânsito entre história, ativismo e universo educacional. Seu final foi trágico, teve vida ceifada pelo companheiro de uma amiga, que no fatídico dia 28 de janeiro do ano 1995, chegou a disparar cinco tiros à queima-roupa contra Beatriz. Sua produção jamais pode ser olvidada, não podendo ser vítima de perversos processos de apagamento e arbitrária invisibilidade, fator que ainda ocorre bastante no quesito referente aos intelectuais negros.

Deixo aqui a fecunda sugestão da leitura de um belo livro dela intitulado “Uma história feita por mãos negras”, imperdível. Conclui-se que temos a obrigação moral de reconhecer nossa historiadora Maria Beatriz Nascimento, percuciente voz que ainda ressoa perante as intempéries dos capciosos emudecimentos.

Autor

Igor Salmeron

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