Meu filho, Deus que lhe proteja

Para lembrar, me expressar e escrever sobre meu pai eu preciso de muito pouco. Basta um simples detonador de memória (um cheiro, por exemplo), que sua imagem vem nítida em minha mente. Como também as muitas coisas que vivemos em tão pouco tempo. José Almeida Monteiro é uma marca presente em todos os dias de minha vida, mesmo já tendo passado quase quarenta anos de seu falecimento, no dia 12 de janeiro de 1982, quando eu tinha pouco menos de oito anos de idade.

Muitas canções que ouço são especiais para lembrar das inúmeras situações de nossa curta amizade e convivência. Para além das conhecidas Pai (Fábio Júnior), Meu Velho (Altemar Dutra), entre outras, há uma em especial que cala fundo no coração e faz verter dos olhos inúmeras lágrimas de saudade. Hoje, não mais doída, posto que já foi calejada. A saudade agora é um livro bom, que se tem vontade de folhear novamente e nas suas páginas amareladas encontrar motivos para ser feliz.

Esta semana, uma canção de Paulo Sérgio trouxe à tona passagens muito significativas, vividas com meu bom e velho pai. As pescarias no rio Piauí ou na Fazenda Jacoca (Macambira-SE); as caçadas nas propriedades de meu tio-avô, o agropecuarista Martinho Almeida; os banhos de riacho na Fazenda de Seu Daniel de Maria José; as partidas de futebol do Lagarto; os velórios de amigos e conhecidos; as compras no Mercado Municipal (foi lá que me presenteou com um lindo boi de barro); as procissões, novenas e festas; as figurinhas de futebol; o abrir do velho cofre de ferro; e o bar e mercearia São José, na esquina da Rua Senhor do Bomfim com a Rua Mizael Vieira.

Eu nasci no ano que Paulo Sérgio gravou a canção que mais me faz lembrar de meu pai. Em 1974, o hit “Quero ver você feliz” (Paulo Sérgio e Carlos Roberto) foi feita em homenagem ao seu filho, que depois fez uma dobradinha com ele, já homenzinho (milagre da tecnologia). Não há parte da letra da música que eu não me encontre, de igual modo ao meu pai. E hoje, ao meu filho: Pedro Franklin.

Gerações diferentes e tempos diferentes, de criações e de relacionamentos. Cada um com seu modo de ver o mundo e de preparar seus filhos. É bem verdade que os meus desafios hoje são bem maiores que os que meu pai enfrentou e olhe que ele e minha mãe deram conta de criar sete rebentos.

Paulo Sérgio teve uma carreira promissora, sobretudo nos anos 70 e início de 80, quando veio a falecer de forma inusitada, dias depois da agressão de uma mulher que se dizia sua fã na saída de um show no Teatro Bandeirantes. Era dia 29 de junho de 1980, em São Paulo, quando veio a óbito, após morte cerebral.

Apesar da curta existência, 36 anos, o repertório de Paulo Sérgio segue sendo ouvido por várias pessoas. Para além de sucessos como “A última canção”, destaque também para “Não creio em mais nada”; Quero ver você feliz”; “Índia”. Foram 12 discos gravados entre 1968 e 1980.

Às voltas com o acervo do jornalista Emerson Carvalho, encontrei uma nota de falecimento de meu pai (manchete de capa), no jornal A Voz de Lagarto, do dia 14 de janeiro de 1982, que me deixou muito orgulho, sobretudo o trecho que dizia: “(…) gozava de grande prestígio no seio de seus pares. Ao sepultamento compareceram grande número de amigos além de todos os seus colegas do legislativo, levando a sua última homenagem”.

Quarenta e sete anos depois, sigo eu aqui, meu pai, escrevendo a minha própria história, às vezes rascunhos de dias de luta e outras vezes com penas de ouro das graças que recebo da bondade de Deus, guiando-me, sempre, por sua benção, seu exemplo e por sua trajetória.

Autor

Claudefranklin Monteiro Santos

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