O feito histórico de Hilda Ribeiro

Erasmo Carlos tinha razão quando, em 1981, gravou uma canção ressaltando a ideia absurda de que a mulher é um sexo frágil. O tempo vem mostrando que os homens podem até ser fortes, mas como salienta o cantor não se chega aos seus pés. É bem verdade que na política isso levou muitos anos, desde que o voto feminino foi institucionalizado constitucionalmente no Brasil, em 1934. Em Lagarto, não foi diferente, mas o pleito eleitoral do último domingo mostrou o contrário.

O primeiro prefeito eleito de Lagarto foi José da Silveira Lins, no ano de 1946. Até a presente data, 28 homens ocuparam o cargo. Antes disso, mais 18 deles como camareiros, intendentes e interventores. Ao todo, na história republicana, foram 46 pessoas do sexo masculino a comandar a cidade, notadamente de classes sociais abastadas.

Nesse cenário masculino e por vezes de comportamento predominantemente misógino, a mulher só encontrou espaço em 1989, por ocasião das eleições das senhoras Lúcia Maria Roriz Teixeira (Professora Pró) e Leopoldina Pereira da Costa para a Câmara de Vereadores de Lagarto. A estas pioneiras seguiram-se Maria Acácia Carvalho Ribeiro, Maria Vanda Monteiro, Maria Else de Oliveira Costa, Josefa Marlene, Marta da Dengue, Creusa do Oiteiros, também como vereadoras. E Luiza Ribeiro e Goretti Reis, como deputadas estaduais.

No executivo municipal, a primeira mulher a colocar seu nome para a disputa, como vice, do empresário Valmir Monteiro, foi Áurea Ribeiro, em 2004. A campanha não alcançou êxito, mas abriu espaço para que os partidos e grupos procurassem dar uma maior atenção ao sexo feminino nas composições de suas chapas, o que passou a ser recorrente nos anos que se seguiram.

Assim, em 2012 a empresária Norma Dantas, esposa do ex-prefeito José Rodrigues dos Santos (Zezé Rocha) tornou-se a primeira mulher a ocupar a função de vice-prefeita na gestão de José Willame de Fraga (Lila), de 2013 a 2016. A fórmula deu certo e no pleito seguinte, outra mulher assumiu a função, a odontóloga e pedagoga Hilda Rollemberg Ribeiro, esposa do deputado federal Luiz Augusto Ribeiro Filho (Gustinho Ribeiro).

Vice de Valmir Monteiro, afastado das funções em março de 2019, Hilda Ribeiro entrou para a história política de Lagarto como a primeira gestora municipal de um dos mais importantes municípios do interior sergipano. Ao que parecia um raio que caiu num lugar uma única vez, pelo menos para as oposições ao seu grupo, ela se transformou numa realidade quando de sua eleição para a Prefeitura no último domingo, 15 de novembro, com 28.041 votos, derrotando num só movimento um ex-aliado, o deputado estadual Ibrain Monteiro (4.630 votos), e o deputado federal Fábio Reis (22.963 votos).

Nascida em Aracaju, no dia 12 de fevereiro de 1981, Hilda Rollemberg Ribeiro é filha de Antônio Carlos Rollemberg de Souza e de Silvana Maria Monteiro. Com apenas 39 anos tornou-se a primeira mulher eleita para a Prefeitura de Lagarto, imprimindo uma nova forma de administrar, mas também de fazer política: com ideias desenvolvimentistas, carisma natural, serenidade, cuidado com as pessoas, e sem responder ostensivamente a ofensas e ataques pessoais e, na maioria das vezes, extremamente sexistas.

Outro aspecto importante na eleição municipal de Lagarto está no vice escolhido por Hilda Ribeiro. Um jovem de origens humildes, sem berço e sobrenome nobre financeiramente, alçou ao seleto grupo de vice-prefeitos da cidade, tendo sido vereador e secretário em outras oportunidades. Fiel ao grupo político liderado pelo Deputado Gustinho Ribeiro, Fabio Frank cravou seu nome na história e revestiu-se de grandes desafios pela frente, colaborando, talvez sem se dar conta, para a melhoria da autoestima de pessoas trabalhadoras de bairros como Libório e Matinha.

A eleição de Hilda Ribeiro em Lagarto deixou alguns recados que vêm ecoando antes mesmo dela. Bole-bole, Ribeiro ou Rollemberg, não importa. Talvez ela seja a terceira via desejada faz algum tempo. Na melhor das hipóteses, seu feito histórico é um frescor de novos ventos que se avizinham para a política lagartense, que, definitivamente, não tem mais espaço para rancores, promessas vazias e agressões de toda sorte, inclusive, a verbal. Sem maquiagem, sem bolsa cara e sem salto alto, ela desfilou na cena da democracia, fazendo valer a força da mulher.

Autor

Claudefranklin Monteiro Santos

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