O mar balança, mas não caio!

Dia desses eu estava na minha rede, desfrutando, na varanda, de uma brisa inigualável, que só Aracaju tem (mesmo em meio a um tórrido calor já de verão). O balançar da rede me fez lembrar do quanto balançamos em 2020. E não foi um balanço do mar, daqueles de deixar enjoado, nauseante, até o mais experiente dos marinheiros. 2020 foi um ano para sobreviventes. E não falo só da pandemônia pandemia. Falo de tudo que fez com que este ano que, graças ao tempo curador de feridas, encerra-se sem um adeus de bom grado.

Foi o balanço da rede que me fez vislumbrar como fomos e voltamos em informações infundadas ou criadas de forma leviana e ideológica. Nunca vi na minha pouca vida de quatro décadas e meia (vou até colocar na primeira pessoa do singular, algo bem pessoal mesmo) tanta gente mentindo, colocando, à frente de tudo e de todos, pretensões políticas, econômicas, ideológicas…

Nunca vi tanta desumanidade na hora em que a humanidade mais precisou SER (verbo) humana. Diria até que o que vi foi INUMANO. Tragédias, horrores, pavores, dores e senhores (e tome eco pra melhorar a eufonia) fizeram 2020 ser um ano paradoxal: pra ser esquecido (diante de toda calamidade) e pra ser lembrado (pra que nunca mais deixemos que algo semelhante aconteça).

2020 foi o ano que acionei o ABS para não dar ouvidos à imprensa geral. Só continuei lendo o Correio de Sergipe. Não tive mais coragem (depois de certo tempo vivendo minha guerra interior, bombardeado por miséria intelectual, histeria coletiva, TOCs e TIK TOKs, desespero existencial…txacarai…) de encarar com seriedade o que presenciei com estes olhos que a terra não há de comer. Sou jornalista de formação e profissão. Senti muita vergonha da categoria. Sim, senti e desabafo mesmo.

Mas, como todo bom marinheiro que enfrenta o bravio mar, sei que até a tempestade também precisa descansar. E é nesta hora que a gente conduz o barco à rota necessária. Quando o mar der trégua, primeiro, vou pescar. Afinal de contas, preciso aproveitar pra pegar uns camarões e uns peixes e fazer moqueca. Depois, velas ao alto e caminho de casa. Se até Ulisses achou guarida novamente (depois de vinte anos de vale night) em sua ítaca e nos braços de sua doce Penélope, porque não haverei eu de descansar a alma novamente no balanço da rede?

Chegaê, 2021! Venha com sede, mas traga água.

Ps.: Meu desejo é que, neste novo ano, não faltem motivos pra você sorrir e compartilhar suas alegrias com quem está ao seu redor!

Autor

André Brito

Outras Notícias

voltar para página inicial