O primeiro sergipano negro a ser embaixador

No Dia da Consciência Negra e seguindo as pesquisas sócio históricas que realizo acerca de personalidades sergipanas, jamais poderia deixar de retratar a trajetória de Raimundo Sousa Dantas, o primeiro embaixador negro brasileiro. Nascido num dia 11 de janeiro do ano 1923 em Estância, Sousa Dantas era filho de genitores simples, sua mãe lavadeira e seu pai um dedicado pintor de paredes. Seus primeiros passos escolares se deram aos seis anos de idade pelo ingresso em escola pública onde ficou por parcos meses.

Autodidata, contando 12 anos aprendeu diversos ofícios, dentre os quais podemos realçar o de principiante ferreiro e engenhoso marceneiro. Em sua fase adolescente chegou a ser entregador de embrulhos advindos de uma casa comercial em sua terra natal, Estância e aos 16 pôde ir trabalhar numa tipografia. Sempre aprendeu com as pessoas de poucos recursos, entre elas uma senhora doceira que lhe dava ensinamentos valiosos acerca da vida. Dona Rita como era conhecida, o fez assimilar diversas historietas que eram publicadas nos importantes jornais de Estância e da capital sergipana.

Passou a residir em Aracaju, onde trabalhou nas oficinas do Correio de Aracaju, tempo em que ouvia inúmeras leituras de Jorge Amado, Machado de Assis e Marques Rebelo, feitas pelo amigo Barbosa, grande amante da literatura com conspícuos traços de modernismo. É nesse áureo tempo que se apaixona pelas leituras, o mundo dos livros e palavras. O ano de 1941 marcou sua chegada ao Rio de Janeiro quando tinha 18 anos de idade.

Em 1942 começa a ler com muitos estorvos os impecáveis textos de Graciliano Ramos, José Lins do Rego, José Américo e Érico Veríssimo. Passou a colaborar com revistas ‘Vamos Ler’ e ‘Carioca’. Atuou como revisor na casa editora de livros infantis e no Diário Carioca. Três anos depois, em 1944 escreveu sua primeira obra, o romance ‘Sete Palmos de Terra’, escrito numa linguagem acessível e assinalado por suas agridoces recordações de Estância. Seu segundo livro ‘Agonia’, foi lançado no ano de 1945.

Ao findar do ano de 1947, escreveu ‘Vigília da Noite’, por influência de autores católicos. Neste livro relata um homem que vive na ausência do credo em Deus, voltado para a satisfação dos seus instintos mais imediatos, procurando alimentos para seu percurso herético. O ano de 1949 delineia a publicação de outro livro ‘Um Começo de Vida’, para a Campanha de Educação de Adultos do Ministério da Educação e Saúde, com tiragem de 20 mil exemplares, lá está relatada a sua emocionante narrativa existencial.

Sousa Dantas venceu todos os percalços que lhe foram impostos com astúcia e sabedoria. Colaborou com diversos jornais e revistas, entre elas: Dom Casmurro, Revista Branco Boletim Bibliográfico Brasileiro, Brasil Açucareiro, Vamos Ler, A Noite, Leitura entre vários outros. No mês de julho de 1961, no então governo Jânio Quadros, Raimundo Sousa Dantas foi o primeiro sergipano negro a ser nomeado embaixador do Brasil em Gana, na África.

Mesmo que sua cor tenha gerado resistência por parte dos preconceituosos diplomatas e alguns intelectuais brasileiros daquele sinuoso tempo, notou que poderia fazer a diferença no âmbito de ser negro e representar o Brasil como tão bem o fez, experiência esta que resultou em outra das suas obras, assinalada como ‘África difícil: missão condenada’. Faleceu dia 08 de março do ano de 2002 aos 79 anos no Rio de Janeiro, deixando legado imperecível de combates e honras.

Portanto, Raimundo Sousa Dantas um nordestino, sergipano, pobre, sem acesso a ensino formal conseguiu superar os mais terríveis impedimentos. Quebrou paradigmas perversos, se tornando ícone pela demanda por igualdade de oportunidades no Brasil. Saibamos lembrar e valorizar esse personagem referencial que contornou as dificuldades a partir da destemida força de vontade!

Autor

Igor Salmeron

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