- 09/09/2019 - 16:38

O sacerdócio comum e o sacerdócio ministerial (Parte 2)

Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição do Mosqueiro.

Na semana passada, já havendo iniciado a reflexão sobre o duplo aspecto do único Sacerdócio de Cristo, debruçamo-nos na configuração e na participação que o Santo Batismo concede aos filhos da Igreja no múnus sacerdotal do Senhor. Dizíamos, naquela ocasião, que ungidos no Ungido, formamos um Reino sacerdotal, exercendo, nas mais diversas atividades e com os mais nobres sentimentos que pressupõem a fé, sacrifícios “piedosamente oferecidos ao Pai, juntamente com a oblação do corpo do Senhor, na celebração da Eucaristia” (LG 34). Falemos agora da participação do único Sacerdócio de Cristo na sua dimensão ministerial.

Para iniciar esta segunda reflexão, recorramos à Carta aos Hebreus, que diz: todo sacerdote “é tirado do meio do povo e instituído em favor do povo nas coisas que se referem a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 5,1). Do meio do povo sacerdotal, Deus escolhe homens, de per si fracos, mas robustecidos pela divina graça, para o serviço deste mesmo povo santo e sacerdotal, pastoreando-o, ensinando-o e santificando-o. E ainda completamos com o que diz o Catecismo da Igreja Católica: o sacerdócio ministerial ou hierárquico “é um dos meios pelos quais Cristo não cessa de construir e de conduzir sua Igreja. Por isso, é transmitido por um sacramento próprio, o sacramento da Ordem” (n. 1547). Sinteticamente, então, afirmamos: do meio do Seu rebanho, o Bom Pastor escolhe e consagra os que, Nele, pastorearão a mesma grei.

O sacerdócio ministerial tem a validade da sua ação no agir de Cristo Cabeça da Igreja, Pastor de Seu rebanho, Sumo Sacerdote do sacrifício redentor, Mestre da Verdade (cf. Catecismo da Igreja Católica, 1548). E para que esta ação seja repleta de infinda perfeição, exige-se do Ministro de Cristo Sacerdote uma santidade cultivada no seu ministério, na representação do próprio Belo Esposo da Igreja, que é o próprio Jesus (cf. Jo 10,11ss). Nas virtudes que lhe são exigidas pelo ser sacerdotal configurado ao Ser de Cristo, Único Sacerdote, cabe-lhe os dotes de uma fé robusta e ativa, uma firme esperança e um amor de Deus e do próximo capaz de todos os sacrifícios, sem contar as virtudes morais da prudência, justiça, religião, humildade, temperança, fortaleza e constância. Não deve ser, como tantos, incipiente, sempre exposto a tornar a cair nos mesmos graves pecados; é necessário, logo de haver-se purificada a alma de seus pecados e maus passatempos, confirmar-se nas virtudes que constituem a via iluminativa, pondo o olhar numa união mais íntima com Deus, ou seja, numa obrigação que têm de aspirar a mais alta perfeição, conforme a exigência do estado clerical; pois, espera-se de um sacerdote que seja, de fato, sacerdote à altura do Cristo Sacerdote. Se outra coisa for, ou mesmo levar uma vida diferente à do seu ministério, estará implicando o grande dom de sua consagração.

No Sacramento da Ordem, temos três graus: o Episcopado, o Presbiterado e o Diaconado. Destas três graduações, apenas duas são ligadas ao sacerdócio ministerial: o Episcopado e o Presbiterado. Em relação a esta última, os que a detêm são vulgarmente conhecidos por ‘padres’. Porém, a alcunha grega “presbíteros”, passa ao português como ‘anciãos’. E temos o conselho do Papa Pedro, Apóstolo, para estes: “Eis a exortação que dirijo aos anciãos que estão entre vós; porque sou ancião como eles, fui testemunha dos sofrimentos de Cristo e serei participante com eles daquela glória que se há de manifestar. Velai sobre o rebanho de Deus, que vos é confiado. Tende cuidado dele, não constrangidos, mas espontaneamente; não por amor de interesse sórdido, mas com dedicação; não como dominadores absolutos sobre as comunidades que vos são confiadas, mas como modelos do vosso rebanho. E, quando aparecer o supremo Pastor, recebereis a coroa imperecível de glória” (1Pd 5,1-5). Creio que nos ressalta ao olhar a grave responsabilidade que recai sobre os ombros dos escolhidos para o ministério sacerdotal: “modelos do rebanho”. E assim, esclarecendo esta passagem ainda mais em comentário, São Martinho de Braga dirá: “Desejamos, ajudando-nos a graça de Deus, obedecer aos divinos preceitos e imitar em tudo a fórmula da Apostólica Epístola, que nos foi recitada, para que não suceda que, desencaminhando-nos em alguma coisa (o que Deus não permita!), sejamos condenados pela divina sentença; mas, antes, seguindo as pisadas dos Santos Padres, mereçamos ser participantes do seu descanso e receber com eles a sempre viçosa coroa de glória, que nos foi prometida”.

Fiéis e pastores: vocacionados à santidade querida por Jesus e concedida a nós pelo Santo Batismo. Conscientes de quem somos, caminhemos à Pátria Celeste, ao encontro do Senhor que nos chama para Si, numa resposta desafiante de amor a nós cabida. Que o rebanho não cesse de rezar por aqueles que o próprio Cristo quis associar ao Seu Ser Sacerdotal e pastoreio da Igreja!