Sempre valerá a pena

Dia desses me perguntam de onde vem a vontade de ensinar, de estar em sala de aula, de participar da vida de tanta gente, de aconselhar, de poder direcionar caminhos, sendo que a sociedade não valoriza o Professor (com P maiúsculo mesmo), em todos os aspectos da palavra valor (a semântica agora é com você que está lendo este texto). Respirei fundo para organizar as ideias, afinal de contas, uma resposta dessa estirpe não pode ser dita assim, de bate-pronto, de supetão, na ponta da língua.

Fiz uma avaliação intrínseco-temporal (e tome neologismo) e fui beber da fonte desde que me conheço por gente boa. Olhei firme para o horizonte dos dias que me fizeram o que sou e, em vez de pensar na resposta que tinha para dar, fiquei namorando os meus quereres e motivações que tinham construído minha trajetória até aquele momento. Foi então que, de súbito, respondi:

– As pessoas.

– Hein!?

– As pessoas são o motivo de trilhar este caminho, que só aguenta quem tem vocação.

Para chegar à resposta que eu dera, tive, naquela fração de segundos de autoavaliação, uma montagem de tudo que havia me movido, desde os primórdios de querer estar em sala de aula até aquele momento. Nunca havia parado para pensar, mas sempre foram as pessoas. Por essa razão, todos os percalços que acometem a vida de um Professor não são suficientes para parar esta força da natureza.

Ainda que tenham, propositalmente, extirpado o respeito por ele; ainda que lhe tenham tirado a condição de autoridade em sala de aula; ainda que lhe tenham nivelado em autonomia aos seus alunos; ainda que lhe tenham negado o merecido recebimento de um salário digno; ainda que tenha lutado contra tudo e todos que lhe transfiguram em ser derrotado, desistir: jamais! O Professor é, antes de tudo, um forte! Grato, Euclides da Cunha!

As pessoas fazem valer a pena!

Aí lembrei da quantidade de alunos que fizeram parte da minha escalada ao Everest (metáfora, viu!?), com sorrisos, lágrimas e corações, e se tornaram meus amigos ao longo da vida e que me fizeram sempre olhar para frente sabendo que havia mais terra fértil à espera de semeadura. Foi então que abri um sorriso, meio de canto de boca, daqueles que entram em coerência e coesão com os olhos, dizendo:

– Sempre valerá a pena!

Saí da conversa me despedindo com um ‘cordial bom dia’, deixando um olhar vago, pendurado no tempo, silente de boca, mas cheio de reflexões que, tenho certeza, derrubaram uma muralha maior que a da China.

Autor

André Brito

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