Valei-me, São José

Em 1970, Rita Lee lançava seu primeiro disco em carreira solo, pela gravadora Polydor Records. Depois de um grande sucesso com a banda Mutantes, a cantora paulista, natural da Vila Mariana (31 de dezembro de 1947), iniciou naquele ano uma trajetória marcante na Música Popular Brasileira, notadamente no rock in roll. Entre os hits do LP “Buil Up” (do inglês, acumular), a canção “José” (Joseph), de autoria de George Moustaki, versão de Nara Leão.

A música alcançou uma excelente aceitação, não somente em ambientes religiosos. Caiu no gosto popular e foi trilha sonora até mesmo de casamentos. Penso que foi seu conteúdo que chamou a atenção das pessoas, além da linda melodia, que transmite verdade e serenidade. Digo isso, porque ela traz outras possibilidades para São José se ele não tivesse aceito Nossa Senhora por esposa.

“José”, também conhecida como “Meu bom José”, é uma canção que mostra que os santos são humanos e sofrem seus dilemas, tem receios e sonhos também. A canção reflete a vida a partir do íntimo de São José e de como ele teria ficado ao saber que Maria estava grávida, mas não dele. Entre alguns “se”, o compositor vai mostrando que a opção dele foi livre e por amor: “Que desta vida só queria / Ser feliz com sua Maria”.

Na esteira da música, outras canções sobre São José também tiveram a mesma repercussão e seguem fazendo parte não somente da vida das pessoas, como também de seu imaginário. Padre Zezinho, em especial, em duas situações. Uma, no disco “Verdades” (1976), com “Canção para um casal fiel”; e outra, no disco “Um Certo Galileu 2” (1981), quando compôs “Cantiga por José”, que vai ao encontro de José, de George Moustaki. Aqui, ele apresenta um São José humano, que “andava procurando a namorada ideal”, um homem mais velho que se apaixonou por uma jovem virgem prometida ao seu Deus.

Em “Canção para um casal fiel”, Padre Zezinho mostra como aquele casal que tinha tudo para dar errado, sobretudo pelos receios de José, viveu uma grande história de amor. Ao se referir a São José, assim destaca: “Às vezes, penso em José querendo compreender a sua fé”; ou ainda: “Seu nome era José, o carpinteiro/ Trabalhava de manhã a sol se pôr / Vivia com Maria, louvando o seu Senhor / E dizem que ninguém jamais viveu tão grande amor!”

A exemplo de “Meu bom José”, em “Canção para um casal fiel”  e em “Cantiga por José”, a tônica de uma pessoa apaixonada, que em nome desse amor não se fez de rogado e fez inúmeros sacríficos pela pessoa amada, se anulando e renunciando a si mesmo para fazer dele seu grande norte. Para além de parceiro da Salvação da humanidade, São José amou Nossa Senhora incondicionalmente.

Como se vê, José não foi ao encontro do senso comum de suposto marido traído, resignando-se a um plano divino. Descendente da casta do Rei Davi, era de uma linhagem dignificante, embora tivesse abraçado uma vida simples e reservada, dedicado ao ofício de carpinteiro em Belém, onde teria nascido, vindo a falecer em Nazaré, deixando Maria viúva e antes da morte e ressureição de Jesus Cristo. 

O papa João Paulo II afirmou que coube a ele, em grande medida, a formação de Jesus em graça e sabedoria. Desde 1870, por determinação do papa Pio IX, é o padroeiro universal da Igreja. Para celebrar aquele momento, o papa Francisco dedicou o período de 8 de dezembro de 2020 a 8 de dezembro de 2021como sendo o “Ano de São José”, dedicando-lhe uma Carta apostólica denominada “Patris corde – Com coração de Pai”.

Por essa e outras razões, na religiosidade popular brasileira, São José está entre os santos mais populares. O dia dedicado à sua memória, 19 de março, até hoje é uma referência para se fazer plantação de milho, por exemplo, para poder colher nas festas juninas. Durante seu novenário, as pessoas, com fervor, tiram bilhetes onde está escrito um tipo de sacrifício, marcado pela abstinência de comida por um ano, notadamente, de uma fruta.

Autor

Claudefranklin Monteiro Santos

Outras Notícias

voltar para página inicial