ENTREVISTA - 19/05/2020 - 17:50

Médica diz que não há prova sobre eficácia do lockdown



Da redação, AJN1

Na última semana, foi discutida em Sergipe, com opiniões divergentes entre políticos, gestores, médicos e empresários, a recomendação, por parte da Defensoria Pública de Sergipe, para que o Município de Aracaju determine lockdown por pelo menos oito dias como forma de reduzir o contágio e evitar o colapso no sistema de saúde, em virtude da covid-19. A possibilidade de decretação do lockdown, que é uma medida mais extrema de confinamento e isolamento social, não foi descartada pelo prefeito de Aracaju, Edvaldo Nogueira, nem pelo governador Belivaldo Chagas, e abriu brecha para uma análise mais apurada sobre a efetividade da possível medida, que já está em vigor em cinco Estados do país.

Para dirimir as dúvidas sobre a eficiência de medidas mais restritivas, o portal AJN1 entrevistou a médica mastologista Paula Saab, Especialista em Gestão de Atenção a Saúde pela Fundação Dom Cabral/Hospital Sírio Libanês. Segundo ela, não há qualquer evidência que o lockdown diminua o contágio, no entanto, defende o isolamento social sem radicalização.

Confira:

AJN1 – A radicalização na política de isolamento social, por meio do Lockdown, seria a saída para diminuir severamente o contágio pela covid-19?

Paula Saab – Não! Não há nenhuma evidência sólida que a essa altura da evolução da doença, onde já há uma grande tendência de subida da curva, o lockdown seria eficaz para diminuir o contágio pelo Sars-cov-2. O lockdown é uma estratégia sem evidência de benefício que pode, inclusive, colocar mais pessoas em risco pela omissão de tratamento de outras doenças. A repercussão de estratégias radicais como essa serão vistas, a médio prazo, como uma grande onda de pacientes oncológicos que perderam seu tempo de tratamento, pacientes crônicos sem controle adequado evoluindo para complicações severas e maior superlotação do serviço público de saúde.

AJN1 – Então, neste caso, você é totalmente contra?

Paula Saab – Sou absolutamente contra o lockdown. Seria como oferecer um remédio que mata sem ter certeza que ele funciona.

AJN1 – Cientificamente falando, qual seria o tempo limite ideal para o isolamento social? Até quando dá para esperar para passar essa pandemia?

Paula Saab – Em doenças transmissíveis altamente contagiosas como a covid19, o lockdown deve ser iniciado ao aparecimento do primeiro caso, e seu fim só pode ser considerado quando for descoberta uma vacina eficaz. Qualquer movimento de abertura antes da vacina pode iniciar a epidemia. Esse desenho é insustentável, principalmente em um país de terceiro mundo. A epidemia vai acontecer e temos que estar preparados para ela.

AJN1 – Todas as pessoas serão contaminadas a curto ou a longo prazo, é o que diz a ciência. Neste caso, a expressão “fique em casa” seria uma ilusão?

Paula Saab – O isolamento social retarda a velocidade com a qual a população se infecta. Isso permite que o sistema de saúde tenha tempo de se preparar para o pico da contaminação e consiga oferecer assistência para todos. Se não tivéssemos feito isolamento até o momento, já teríamos entrado na curva de ascensão e com uma velocidade de contaminação muito maior. Para a epidemia passar, essa curva, obrigatoriamente, tem que acontecer. O “fique em casa” foi e é muito importante. Sem radicalismos.

AJN1 – Diante da repercussão massiva nos meios de comunicação, a covid-19 ganhou status de principal doença a ser combatida no país. Isso não pode levar a um desleixo ou esquecimento de tantas outras enfermidades mais letais?

Paula Saab  – Certamente muitas doenças estão sendo deixadas de lado e muitas pessoas irão perder suas vidas. Um estudo recente estima que 50 mil pessoas com câncer não estão sendo diagnosticadas por causa da quarentena, perdendo sua chance de cura em um diagnóstico precoce. A covid19 tem muita importância e deve ser encarara com muita seriedade. As análises de cenário devem ser constantes e as ações rápidas. Novos protocolos medicamentosos estão aparecendo com excelentes resultados. Não podemos desestabilizar a estrutura a um ponto sem retorno para preservação da saúde e da vida. É esse o maior risco que estamos correndo. Destruição da nossa capacidade de intervir na saúde de maneira geral. 

AJN1 – Qual a sua avaliação sobre esse momento no Brasil e no mundo com relação à covid-19?

Paula Saab  – A maior guerra que o Brasil luta hoje é política e não de saúde. É vergonhoso assistir essa barbárie sendo conduzida pelo interesse de pequenos grupos e não focado na população. Uma politica de lockdown agora seria mais uma jogada política do que de saúde pública. Não há qualquer evidência que um lockdown diminua o contágio e mude a curva da doença, alterando o desfecho da covid19.  Sabemos que vai mudar o desfecho para milhares de pessoas em situação de miséria, milhares de pacientes com câncer e doenças crônicas. Esses irão morrer, anônimos e fora de qualquer curva. Serão o “dano colateral” de uma estratégia política, errática e infundada.