A Estabilidade Financeira no Brasil

O Banco Central do Brasil (BC) divulgou no dia 25/05/2026, o Relatório de Estabilidade Financeira (REF) referente ao segundo semestre de 2025. O REF é uma publicação semestral destinada a apresentar o panorama da evolução recente e as perspectivas para a estabilidade financeira no Brasil. Assim, neste breve ensaio, abordarei algumas informações relevantes constantes do referido relatório.
O Banco Central do Brasil define estabilidade financeira como a manutenção, ao longo do tempo e em qualquer cenário econômico, do regular funcionamento do sistema de intermediação financeira entre famílias, empresas e governo. O Relatório que estamos abordando é constituído por dois capítulos. O Capítulo 1 – Avaliação dos Sistemas Financeiros Nacional e Internacional – apresenta um panorama do sistema financeiro internacional; do Sistema Financeiro Nacional (SFN), com análises dos riscos relacionados a liquidez, crédito, rentabilidade e solvência; dos testes de estresse de capital e de liquidez e seus reflexos sobre a situação de solvência das instituições; da Pesquisa de Estabilidade Financeira (PEF); e do funcionamento dos sistemas do mercado financeiro (SMFs) sistemicamente importantes. O Capítulo 2 – Temas Selecionados – versa sobre assuntos relevantes, e não necessariamente recorrentes, que podem ter reflexos sobre a estabilidade financeira no Brasil. A partir de 2025, o REF passou a divulgar, na primeira edição de cada ano, a decomposição do custo do crédito e do spread, bem como os indicadores de concentração do SFN. Existe também, o Anexo Estatístico que relaciona os dados dos gráficos e das tabelas deste Relatório.
Em minha visão de economista, temos logo no início do Relatório, uma boa notícia, o Banco Central do Brasil (BC) considera que não há risco relevante para a estabilidade financeira. O Sistema Financeiro Nacional (SFN) permanece com capitalização e liquidez confortáveis e provisões adequadas ao nível de perdas esperadas. A rentabilidade do SFN permaneceu praticamente estável, demonstrando resiliência e capacidade de gerar lucros para aumentar o capital. Além disso, os testes de estresse de capital e de liquidez demonstram a robustez do sistema bancário.
Um ponto que foi muito questionado na entrevista coletiva que a Diretoria do BC concedeu, após a divulgação do REF foi sobre a liquidação extrajudicial de instituições integrantes do conglomerado Master e o outro foi sobre a situação do Banco Regional de Brasília (BRB). Sobre o Banco Master e seu conglomerado, o relatório o BC apontou que não gerou efeitos sistêmicos no SFN. Após a liquidação, clientes ressarcidos pelo FGC direcionaram recursos principalmente para instituições financeiras (IFs) de maior porte e de maior relevância sistêmica, em linha com o esperado em eventos de resolução bancária. As IFs permaneceram com amplo acesso ao mercado de captações, o que reforça a confiança dos depositantes na solidez do SFN. E sobre o BRB por questões legais do devido sigilo bancário, a Diretoria do BC preferiu não comentar, além disso, no REF não existem informações e comentários sobre a situação do BRB.
De acordo com o REF, o crédito prosseguiu desacelerando, em linha com a moderação do crescimento da atividade econômica. Do lado das famílias, observou-se arrefecimento do crédito nas modalidades de maior risco. Do lado das pessoas jurídicas, a desaceleração ocorreu para empresas de todos os portes. Embora em desaceleração, o mercado de capitais seguiu crescendo em ritmo bastante superior ao crédito bancário. Ainda há sinais de propensão ao risco, mas as IFs continuaram reduzindo o apetite. A desaceleração do crédito foi acompanhada por leve melhora na qualidade das novas contratações com pessoas jurídicas, sugerindo maior cautela na originação. Em relação às famílias, sinais de propensão ao risco persistem em modalidades específicas, notadamente no crédito pessoal não consignado, que continuou crescendo a taxas elevadas e com aumento da participação de operações sem garantia.
No REF aponta-se que a materialização de risco manteve-se coerente com a desafiadora capacidade de pagamento das empresas e, principalmente, das famílias. No crédito às empresas, a materialização de risco manteve-se relativamente estável. O aperto das condições financeiras não influenciou de forma significativa a capacidade de gerar caixa operacional para pagar dívidas, especialmente das empresas de maior porte. No crédito às famílias, os ativos problemáticos aumentaram em todas as modalidades de crédito, sob impacto da inadimplência. A capacidade de pagamento das famílias deve persistir desafiadora, sobretudo para os tomadores de menor renda.
O REF também traz avaliações sobre o sistema financeiro internacional e sobre as infraestruturas do mercado financeiro, e apresenta o resultado da pesquisa de estabilidade financeira. No cenário geopolítico, o REF aponta que a incerteza acerca do ambiente externo aumentou. A eclosão do conflito entre Estados Unidos da América (EUA), Israel e Irã elevou consideravelmente a incerteza sobre o cenário global, na medida em que seus impactos vêm se estendendo na região e o fluxo de commodities pelo Estreito de Ormuz vem sendo afetado. Apesar da incerteza sobre as políticas econômicas ao longo do ano e do aumento das tarifas norte-americanas, o crescimento global encerrou 2025 acima do esperado em seu início.
Um destaque é a evolução do setor de intermediação financeira não bancária (NBFI) que tem ampliado sua participação nos ativos do SFN amplo, destacando-se como principal financiador da dívida pública mobiliária federal e exercendo importante papel no mercado de capitais. O REF aponta que o NBFI brasileiro é heterogêneo, está sob a supervisão de diferentes reguladores e possui os fundos de investimento (FIs), os fundos de pensão e as seguradoras como seus principais componentes. O setor responde por parcela significativa dos ativos do SFN amplo, direciona seus recursos majoritariamente para ativos de elevada liquidez e é o principal financiador da dívida pública mobiliária interna. Sua participação no crédito amplo é reduzida, apesar de exercer papel central no mercado de capitais. Os FIs são responsáveis pela maior parcela de ativos do NBFI brasileiro e apresentam baixo risco de liquidez agregado.
O importante é saber que o Brasil está com a sua estabilidade financeira preservada.
