Sergipe precisa aprender a competir antes que o mundo “concorra” contra nós

Por Diego da Costa
Durante muito tempo, quando falávamos em concorrência, pensávamos em empresas disputando clientes, preços, mercados e participação. Hoje, porém, a concorrência ganhou outra dimensão.
Empresas competem com empresas. Cidades competem com cidades. Estados competem por investimentos. Destinos turísticos disputam visitantes. Organizações disputam talentos. Países disputam tecnologia, capital e mercados.
E Sergipe está inserido nessa disputa.
A pergunta que precisamos fazer, portanto, não é apenas quem são nossos concorrentes, mas: em que queremos ser competitivos?
O mundo mudou. O Nordeste mudou. O Brasil mudou. E Sergipe também precisa mudar sua maneira de enxergar oportunidades.
A concorrência chegou ao território
Uma empresa sergipana pode disputar mercado com outra empresa do Ceará, Pernambuco ou Bahia. Pode competir com produtos vindos de São Paulo. E, dependendo do segmento, pode estar concorrendo com empresas da China, dos Estados Unidos ou da Europa.
Essa realidade exige uma mudança de mentalidade.
Não basta produzir. É preciso produzir melhor.
Não basta vender. É preciso gerar valor.
Não basta ter potencial. É preciso transformar potencial em resultado.
É nesse ponto que Administração, planejamento e estratégia deixam de ser conceitos acadêmicos e passam a ser instrumentos de sobrevivência e crescimento.
Sergipe possui ativos importantes. O desafio está em transformá-los em vantagens competitivas sustentáveis.
Agronegócio: produzir é apenas o primeiro passo
O agronegócio sergipano apresenta oportunidades importantes. A produção de milho e a cadeia do leite, por exemplo, podem representar muito mais do que atividade primária.
Existe uma diferença enorme entre produzir uma commodity e desenvolver uma cadeia de valor.
O milho pode alimentar a indústria, a produção animal e diversos outros negócios. O leite pode deixar de ser apenas matéria-prima e ganhar valor por meio da industrialização, da tecnologia, da qualidade, da marca e da distribuição.
O desafio está justamente em avançar do primeiro elo para os demais.
Precisamos pensar em produção, industrialização, logística, tecnologia, comercialização, crédito, qualificação e acesso a mercados.
Quanto mais etapas dessa cadeia permanecerem dentro do Estado, maior será a capacidade de geração de renda, empregos e oportunidades.
Turismo: Sergipe ainda tem muito espaço para crescer
Outro setor estratégico é o turismo.
Sergipe possui litoral, patrimônio histórico, cultura, gastronomia, natureza e uma localização privilegiada no Nordeste. Mas talvez ainda não tenhamos transformado todo esse patrimônio em uma verdadeira indústria de experiências.
Turismo não é apenas hotel.
É hotel, restaurante, transporte, eventos, entretenimento, cultura, artesanato, gastronomia, tecnologia, comunicação e serviços.
Um turista que chega a Sergipe movimenta uma cadeia econômica inteira.
Por isso, competir no turismo significa competir por experiência, qualidade, preço, segurança, hospitalidade, conectividade e promoção.
E há uma enorme oportunidade.
Em vez de enxergar outros estados nordestinos apenas como concorrentes, poderíamos também enxergá-los como parceiros para a construção de uma estratégia regional.
O Nordeste pode competir com outros destinos nacionais e internacionais quando seus estados trabalham juntos para ampliar rotas, experiências e mercados.
Construção civil: o aquecimento precisa deixar legado
A construção civil também ocupa uma posição estratégica.
Quando o setor cresce, não cresce apenas a construtora. Crescem fornecedores de materiais, arquitetos, engenheiros, corretores, transportadores, prestadores de serviços, comércio e uma extensa cadeia produtiva.
Mas existe uma questão administrativa importante:
Como transformar um ciclo de crescimento em desenvolvimento permanente?
Se a construção civil está aquecida, precisamos aproveitar esse momento para qualificar mão de obra, estimular inovação, incorporar tecnologia, melhorar produtividade e fortalecer empresas locais.
O crescimento de hoje precisa preparar o mercado de amanhã.
Os três setores precisam conversar
É aqui que entra uma discussão fundamental sobre desenvolvimento.
O primeiro setor, representado pelo poder público, precisa criar ambiente favorável para o desenvolvimento: infraestrutura, educação, qualificação profissional, segurança jurídica, mobilidade, tecnologia e políticas públicas eficientes.
O segundo setor, formado pelas empresas, precisa investir, produzir, inovar, gerar empregos, assumir riscos e transformar oportunidades em negócios.
E o terceiro setor, composto por organizações da sociedade civil, entidades, associações, sindicatos, instituições sociais e demais organizações, pode exercer um papel fundamental de articulação, representação e construção de soluções.
O problema aparece quando cada setor trabalha olhando apenas para si.
Desenvolvimento exige conexão.
Governo, empresas e sociedade precisam conversar sobre o mesmo futuro.
E o ano eleitoral?
Estamos diante de mais um ciclo eleitoral.
E ano eleitoral costuma trazer discursos, propostas, promessas e debates.
Mas existe uma oportunidade muito maior.
Transformar o ano eleitoral em um ano de planejamento.
Sergipe precisa discutir, independentemente de ideologias ou partidos, qual Estado deseja construir nos próximos dez anos.
Quais setores serão estratégicos?
Como transformar o agronegócio em agroindústria?
Como ampliar a participação do turismo na economia?
Como aproveitar o ciclo da construção civil para gerar desenvolvimento?
Como preparar nossos trabalhadores para as novas profissões?
Como estimular inovação e empreendedorismo?
Como atrair investimentos?
Como melhorar a infraestrutura?
Como fazer nossas pequenas e médias empresas competirem nacionalmente?
E, principalmente, como criar um ambiente em que o empreendedor sergipano tenha vontade de investir, crescer e permanecer aqui?
Essas perguntas são maiores do que uma eleição.
Elas dizem respeito ao futuro.
Não precisamos ser maiores. Precisamos ser melhores.
Talvez Sergipe não consiga — e nem precise — disputar tamanho com os maiores estados do Nordeste.
Nossa estratégia pode ser outra.
Podemos ser mais ágeis.
Mais especializados.
Mais inovadores.
Mais organizados.
Mais conectados.
Mais eficientes.
A verdadeira vantagem competitiva de um território não está apenas no tamanho de sua economia, mas na capacidade de transformar seus recursos em oportunidades.
Sergipe possui território, gente, empresas, conhecimento, localização e setores com potencial de crescimento.
O que precisamos é conectar essas forças.
A concorrência global já chegou. Ela está no preço, na qualidade, na tecnologia, na produtividade, na logística, na capacidade de inovar e, principalmente, na velocidade com que empresas e governos conseguem tomar decisões.
Por isso, o desafio de Sergipe não é simplesmente competir para ser igual aos outros.
É descobrir em que podemos ser melhores que os outros.
Porque o futuro não pertence necessariamente aos maiores.
Pertence aos que conseguem se preparar melhor.
Sergipe não precisa esperar o futuro acontecer. Precisa administrá-lo.
