Enquanto houver sentido

23/09/2026 às 06:15

 

Um pouco antes do último suspiro, Ivan Ilitch, personagem célebre de Tolstói, declarou: “A morte acabou; ela já não existe mais!”

Ilitch viveu, enquanto teve saúde, uma vida que definimos como normal. A infância no seio de uma família comum, a formatura em Direito, o serviço público como missão, o casamento agraciado pelo status social. Existiu para demonstrar aos outros que era um exemplo a seguir. Contudo, quando a enfermidade o surpreendeu, notou que quase ninguém se importava com o seu destino, que a compaixão por sua dor era escassa e que amigos e familiares já planejavam o que fariam diante de seu passamento iminente.

Pois bem, dias desses fui impactado por uma narrativa real com traços de semelhança à ficção romanesca. Uma colombiana tornou pública a luta que travou na Justiça para que o Estado lhe assegurasse a morte assistida. Aos trinta anos, Catalina Giraldo padecia de um quadro psiquiátrico grave e persistente. Vivia profundamente entristecida e mergulhada em depressão permanente. Não havia remédio que amainasse seu estado de espírito. Sentia que a vida não guardava propósito e queria que o governo de seu país acatasse seu desejo de morrer de forma digna, sob acompanhamento médico.

Catalina pretendia algo um pouco diferente da eutanásia. Objetivava morrer pelas próprias mãos, e não por terceiros. Porém, queria, no transcurso da execução do suicídio, a presença de um médico. No Brasil, a intervenção médica nos termos desejados por Catalina poderia caracterizar o delito de auxílio ao suicídio. O governo do país dela, embora chancele a eutanásia em determinadas circunstâncias, também titubeava sobre a legalidade da morte assistida.

A razão pela qual Catalina não queria que o médico diretamente a matasse eu não descobri. Não sei se desejava garantir a presença de alguém capacitado para agir caso o suicídio, tal como planejado, malograsse e fosse necessário intervir rapidamente. O fato é que a colombiana empreendeu uma ferrenha disputa nos tribunais. Ao mesmo tempo, chamou a atenção da mídia em sua tentativa de convencer a sociedade acerca da necessidade de o próprio governo ofertar condições para quem quer devolver o bilhete da concepção.

Com efeito, a tese de que o Estado deva prover condições para que alguém morra é tema delicado. Mesmo nos casos mais graves, nos quais a Medicina desengana o doente, diagnosticando a irreversibilidade da enfermidade, há quem entenda que o governo não poderia ratificar decisão tão extrema, ainda que ansiada pelo próprio paciente. Uma sociedade politicamente organizada que incentive o suicídio assistido não comove. Ao contrário, surpreende quem, discordando desse tipo de política pública, atribua aos governantes a pecha de assassinos institucionais. Eis a razão pela qual Catalina teve de se submeter a uma via-crúcis processual até optar, no momento final, pela eutanásia, em 9 de julho de 2026.

Ilitch e Catalina são, portanto, dois casos igualmente comoventes, embora os personagens seguissem trajetórias diferentes. Suas perspectivas existenciais eram profundamente distintas. Ilitch buscava a prosperidade de uma vida brilhante e tentou ser um cidadão exemplar. Quando notou que ninguém lhe dava a mínima, percebeu que viveu em vão, em busca de uma felicidade que só seria encontrada plenamente em algum ponto distante do futuro que nunca veio. Já Catalina padecia de um transtorno mental grave, que a lançava numa depressão profunda. Para ela, aparentemente, nada tinha um propósito. Tentou demonstrar isso ao grande público, talvez buscando ser entendida, e não criticada ferozmente por suas escolhas.

Ilitch mantinha ilusões de progresso. Catalina cultivava a eterna solidão da alma. Ele procurou o sentido até a vida lhe desferir um duro golpe. Ela só viu o sentido de tentar mostrar aos quatro cantos que nada efetivamente fazia sentido. Ambos legaram uma lição: para viver, é preciso algum construto existencial. Perseguir interesses que realmente nos satisfaçam.

Em O Domínio da Vida, Ronald Dworkin ingressa na discussão. Menciona dois tipos de interesses que movem a humanidade. Um ligado aos prazeres, nomeado experiencial. Outro relacionado àquilo que consideramos importante realizar em nossa própria vida, chamado de crítico. Um consiste em viver experiências atrativas e prazerosas enquanto se respira. Outro está atrelado a uma expectativa existencial mais profunda, à construção de uma história que nos molde, que nos coloque numa posição relevante no mundo, que eleve a efêmera passagem ao nível de uma biografia digna. Catalina, aparentemente, não alimentava nenhum desses interesses ou talvez não fosse capaz de os alimentar, em virtude de sua condição biológica. Ilitch, por outra via, concentrou-se excessivamente nos interesses críticos e descobriu tarde demais que tudo o que fizera por seu projeto existencial fora em vão.

Sem prazeres e sem sonhos, viver até pode ser preciso, mas exige um esforço descomunal para quem tem a alma mergulhada na clausura onde a morte nunca acaba.

← AnteriorRIBEIRO EM ALTAPróximo →Selo de Ações Sustentáveis