Enterrando nossos mortos

03/10/2026 às 06:20

 

Já estamos acostumados a sepultar os da nossa geração, alguns anos a mais e alguns a  menos. Um bocado, desde priscas eras, que estanca no meio do caminho, por motivos diversos, o primeiro se constituindo num choque, puxando outros e outros, a lista aumentando, de modo que, de improviso, sem caneta e papel para as anotações, a gente não consegue enumerar todo o elenco dos que se foram, a maioria voltando a terra natal para o descanso eterno ocorrer, alguns ficando por outras plagas, a depender das determinações deixadas ou das vontades manifestadas.

A notícia se propaga entre nós, uns se encarregando de passar aos outros, e assim por diante. De Luciano Oliveira, aquartelado no Recife, brota a dúvida: pulou a fila? Zé Oliveira, também no Recife, aproveita a oportunidade para usar o latim aprendido no seminário: Requiescat in pace. E a gente, a querer saber se o sepultamento é em Aracaju ou em Itabaiana. O nome fica pairando entre nós por alguns dias, até ser substituído por outro, em viagem a terra de pé junto, para citar o meu pai, que não perdia o hábito de anotar os óbitos em caderneta.

O certo é que os janeiros vão banhando os da minha geração [e os de todas] cada vez mais. O olhar para trás ao lado da presença permanente da idade, em número que cada ano muda, os algarismos subindo, o panorama vai mostrando que, adiante, o tempo desafia a sabedoria de qualquer cigana. Um acidente, uma doença fatal, tudo vai desaguar no coração, que bate enquanto o organismo liberar forças para tanto, até que decrete o momento em que não possa mais se movimentar, missão cumprida, sendo, depois, conduzido para outra esfera, cortina que se fecha, as mãos cruzadas sob o peito, do que fazem a viagem sem passagem de volta. .

Já nos acostumamos. É certo. Contudo, não conseguimos, uns, conter as lágrimas e adubar os olhos, a morte é o destino certo de todos, mas o morto, no caixão, olhos fechados, a certeza de que a sepultura ou a cremação – invenção que nos chega – é a trilha a ser tomada, abarcando gerações inteiras, uma a uma, sem respeito a idade, os mais novos podendo tomar a vez dos mais velhos, porque não é o número de anos que dita o instante fatal. De nossa parte, a esperança da senhora morte esquecer a gente, pular o nome em lance de distração, ou ficar atrás, bem escondido para não ser visto, sem reclamar de ter sido preterido. Não se perde em sonhar.

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