Brasil e desafios econômicos
De acordo com a Diretora Geral do FMI, Georgieva, a política monetária mundial entrou em uma fase mais complexa, pois os bancos centrais precisam enfrentar choques de oferta, especialmente energia, ao mesmo tempo em que convivem com dívidas públicas elevadas e juros de longo prazo crescentes. O problema é que elevar juros para combater uma inflação originada na oferta reduz a demanda, mas não elimina diretamente a causa inicial do aumento de preços.
O FMI projeta crescimento brasileiro de 2,4% em 2026, após 2,3% em 2025, mas espera que o crescimento se aproxime de 2,5% no médio prazo. O FMI também estima que a dívida bruta do governo geral brasileiro chegue a 98% do PIB em 2026 e, sem mudança estrutural, continue subindo até aproximadamente 106% do PIB em 2035.
A Diretora Geral do FMI entende que o risco fiscal é a principal preocupação da entidade para os países emergentes, inclusive o Brasil. Cuidar desta variável macroeconômica é desafiante neste momento em que o Brasil convive com o choque de petróleo em uma situação peculiar.
Cabe registrar que há uma diferença importante entre Brasil e países importadores de petróleo, pois o Brasil é exportador líquido de petróleo e gás.
Portanto, um petróleo mais caro produz simultaneamente para o Brasil: Efeito negativo, decorrente de gasolina e diesel mais caros; aumento do custo logístico; pressão sobre alimentos; pressão sobre inflação e redução da renda real das famílias e efeito positivo, através do aumento da receita de exportações; melhora dos termos de troca; aumento de royalties e participações governamentais; aumento da receita da Petrobras e potencial melhora do balanço externo.
O próprio FMI chama atenção para essa particularidade brasileira, entendendo-se que o aumento dos preços internacionais de energia pode melhorar os termos de troca e os resultados externo e fiscal, embora também gere pressão inflacionária. Isso cria uma situação interessante, pois o mesmo choque que aumenta a inflação brasileira pode melhorar a renda externa e a arrecadação do país. Por isso, a recomendação do FMI é particularmente relevante, ao orientar que não se pode transformar todo o ganho extraordinário de petróleo em aumento permanente de gasto público. O Fundo recomenda que as receitas extraordinárias relacionadas ao petróleo sejam poupadas para melhorar a posição fiscal.
Sobre a política monetária brasileira, o Banco Central iniciou 2026 reduzindo a Selic, depois de mantê-la elevada durante boa parte de 2025.
O FMI considerou apropriados os cortes realizados no primeiro semestre, mas defende cautela na continuidade do processo, diante dos riscos inflacionários. O dado mais recente é relativamente positivo, com o IPCA acumulado em 12 meses caindo para 4,22% em agosto de 2026, dentro do intervalo de tolerância da meta.
Entretanto, há uma diferença fundamental entre inflação corrente e expectativa de inflação. Para a política monetária, a segunda é especialmente importante, pois se empresas, trabalhadores e investidores acreditarem que a inflação continuará acima da meta, haverá maior reajuste de salários; maior formação preventiva de preços; juros longos mais elevados; menor investimento; maior pressão cambial; e necessidade de manutenção da Selic em nível elevado.
Por isso, a queda do IPCA não significa automaticamente que o Banco Central possa acelerar os cortes da Selic. Sabe-se que a grande fragilidade brasileira é diferenciar r – g; onde r = taxa real de juros e g = crescimento real da economia. Se r>g, a dívida tende a apresentar maior dificuldade de estabilização, especialmente quando o resultado primário não é suficientemente elevado.
O FMI afirma explicitamente que o diferencial brasileiro entre juros e crescimento é desfavorável em comparação com economias similares da região, justamente porque o país apresenta custos de financiamento persistentemente elevados, esse talvez seja o principal problema estrutural da economia brasileira. O segundo problema é a política fiscal. O FMI estima que a política fiscal brasileira seja expansionista em 2026, depois de ter sido mais restritiva em 2025. O Fundo projeta déficit fiscal geral de aproximadamente 8,2% do PIB em 2026.
Aqui aparece uma contradição, pois temos Política monetária contracionista e Política fiscal relativamente expansionista. Isso significa que o Banco Central precisa fazer mais esforço para conter a demanda do que faria se a política fiscal estivesse contribuindo para a desinflação.
Nas simulações do Fundo, um ajuste fiscal adicional de aproximadamente 0,6% do PIB na mudança do resultado primário estrutural entre 2026 e 2028 poderia reduzir a inflação em aproximadamente 0,2–0,4 ponto percentual até 2028 e permitir uma redução adicional dos juros de aproximadamente 0,4–0,7 ponto percentual.
Georgieva acrescenta uma variável que normalmente não aparece nas análises fiscais tradicionais: inteligência artificial. Segundo ela, a IA pode produzir no curto prazo, aumento do investimento; aumento da demanda; valorização de ativos e pressão sobre preços. Para o Brasil, isso é especialmente importante porque o país não deveria utilizar a IA apenas como tecnologia de automação, mas como instrumento para elevar a produtividade industrial; produtividade agrícola; serviços; educação; saúde; etc.
O maior risco brasileiro não é simplesmente a inflação, nem simplesmente a dívida. É a interação entre inflação, juros elevados, dívida crescente e baixo crescimento potencial. Este é o desafio a ser superado.
