A vitória da democracia e os caminhos da participação popular

As eleições presidenciais de 2026 ficarão marcadas na história política brasileira não apenas pela extraordinária virada eleitoral que assegurou a reeleição do Presidente Lula, mas sobretudo pela intensa mobilização popular que, diante da percepção de uma ameaça concreta de retrocessos autoritários, tomou conta das ruas e das redes digitais em defesa da democracia e das conquistas civilizatórias da “Constituição-Cidadã” de 1988.
Com efeito, ao final do primeiro turno, o cenário era especialmente preocupante. A candidatura que obtivera a maior votação, vinculada ao agrupamento político responsável pelos reiterados ataques às instituições democráticas nos últimos anos, anunciava a intenção de utilizar as amplas maiorias conquistadas na Câmara e no Senado para “mudar a Constituição”, ameaçando comprometer os mecanismos de freios e contrapesos, os direitos fundamentais e as garantias do Estado Democrático de Direito.
Não se tratava, evidentemente, de questionar a legitimidade das maiorias parlamentares eleitas ou a possibilidade de reformas constitucionais, mas de reconhecer os riscos de concentração de poder e de eventual supressão de conquistas democráticas e sociais, diante do histórico autoritário daquele agrupamento político, cujos principais líderes, afinal, foram julgados e condenados pela tentativa de golpe de Estado e abolição violenta do Estado Democrático de Direito, em atos que culminaram no 8 de janeiro de 2023.
Foi nesse contexto que a sociedade brasileira parece ter despertado para a dimensão dos riscos envolvidos na disputa eleitoral, transformando o que inicialmente se apresentava como uma eleição presidencial polarizada em uma extraordinária mobilização em defesa da própria democracia.
Esse é, certamente, o aspecto mais significativo das eleições de 2026.
Assistimos a um movimento de grande intensidade, espontâneo, impulsionado sobretudo pela juventude e pelos estudantes, que tomou conta das ruas e mobilizou trabalhadores, artistas, intelectuais, movimentos sociais e cidadãos de diferentes gerações e posições políticas.
Essa mobilização também se traduziu em um esforço coletivo para estimular o comparecimento às urnas – inclusive e especialmente dos mais idosos, que fizeram esforços extraordinários para esse comparecimento – contribuindo para a redução da abstenção no segundo turno, que caiu de 21,08% para aproximadamente 19,2%, em uma conjuntura na qual cada voto adquiriu especial relevância.
Outro fenômeno extraordinário foi a reação da campanha vitoriosa nas redes digitais, espaço até então marcado pela predominância dos segmentos políticos de extrema direita. A iniciativa do deputado reeleito André Janones, com o canal de WhatsApp “Exército do Lula”, que alcançou milhões de participantes, demonstrou a possibilidade de organização de uma poderosa rede de mobilização política digital, capaz de disputar a influência anteriormente exercida quase hegemonicamente pelo bolsonarismo.
Tudo isso em uma campanha marcada por fortes pressões políticas e econômicas, inclusive internacionais, com manifestações e ações de oposição e de interferência por parte do governo Trump, atuação das grandes plataformas digitais e de setores empresariais vinculados às apostas, além de graves dificuldades de transporte público no dia da votação, com deliberados e orquestrados obstáculos impostos ao exercício do direito ao voto que exigem a devida apuração.
Apesar dessas adversidades, o povo brasileiro compareceu às urnas e produziu uma virada eleitoral histórica, assegurando a reeleição de Lula com 51,79% dos votos válidos.
Todavia, o significado político desse resultado não se limita à vitória de uma candidatura ou de determinado agrupamento partidário. A democracia venceu porque a sociedade demonstrou capacidade de mobilização para defender suas instituições, suas liberdades e suas conquistas constitucionais.
Em artigos publicados após as eleições de 2022, destacamos que, embora a democracia eleitoral representativa houvesse resistido aos ataques então enfrentados, sua preservação exigiria uma atuação institucional permanente, preventiva e efetiva. Os acontecimentos posteriores, especialmente a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, confirmaram a pertinência daquela preocupação.
Agora, a experiência de 2026 permite acrescentar uma dimensão fundamental àquela reflexão: a defesa permanente e efetiva da democracia não pode depender exclusivamente das instituições estatais, exigindo também a participação ativa, consciente e organizada da própria sociedade.
Essa percepção parece ter sido incorporada pelo Presidente Lula, que, tanto na reta final da campanha quanto após a vitória, reconheceu a necessidade de um novo jeito de governar, com maior participação popular nas decisões governamentais.
A Constituição de 1988, afinal, não instituiu uma democracia exclusivamente representativa. Ao estabelecer que todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, consagrou um modelo que combina representação política e participação popular, cuja concretização exige mecanismos efetivos de intervenção da sociedade na formulação, execução e fiscalização das políticas públicas.
A extraordinária mobilização popular de 2026 não pode, portanto, dissipar-se com o encerramento da campanha eleitoral. Seu maior legado está na transformação dessa energia democrática em participação política permanente, capaz de contribuir para o enfrentamento das desigualdades sociais, a ampliação dos direitos fundamentais e o aperfeiçoamento das instituições republicanas.
A democracia brasileira resistiu em 2022, enfrentou graves ameaças nos anos seguintes e, em 2026, encontrou na mobilização popular uma demonstração renovada de sua vitalidade.
Ainda há muito a avançar em direção a uma democracia material, participativa e inclusiva. Mas talvez a principal lição de 2026 seja a de que a defesa da democracia não se realiza apenas pela preservação das instituições, por mais indispensável que ela seja, mas também pelo exercício permanente da cidadania e pela participação ativa do povo na definição dos destinos políticos do país.
A democracia venceu mais uma vez. O desafio agora é transformar essa vitória em um novo impulso para sua defesa permanente e efetiva e, sobretudo, para a concretização da democracia participativa anunciada pela “Constituição-Cidadã” de 1988.
